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Juventude

27/10/2017

MARTYRIA: Um testemunho explícito do Amor.

Por Jerônimo Lauricio

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Chegamos ao fim desse ciclo de artigos sobre o primeiro dever da natureza íntima da Igreja – o Anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria-didaché). Depois de termos partilhado sobre o ponto de partida da evangelização e da formação da vida cristã  que é “O Querigma: o primeiro anúncio da Boa Nova de Cristo” ; também depois de termos visto a importância do “Didaquê: Uma evangelização para o aprofundamento do Querigma”, hoje queremos refletir sobre a outra dimensão da comunicação da nossa fé – a MARTYRIA.

É muito interessante notar que quando olhamos para a Igreja Primitiva percebemos que ela não era formada por comunidades que se dedicavam apenas à proclamação, pregação (Querigma) audível e inteligível do Evangelho. A sua beleza extraordinária, em meio à perseguição do império romano, estava sobretudo na vida de homens e mulheres “que cheios de intrepidez no Senhor davam testemunho da Sua ressurreição” (At 1, 8; 5, 33). Sim, os mártires foram testemunhas fiéis, que ofereceram a vida inteira por amor a Cristo.

MARTYRIA é uma palavra grega que significa o TESTEMUNHO de fidelidade a Cristo. Na história da Igreja, os mártires, são “os campeões da fé” (como chama o Papa Bento XVI), que com suas vidas nos ensinam que só é capaz de ser testemunha de alguém quem o conheceu. Mas ao mesmo tempo eles nos mostram que o testemunho vai além da transmissão do conhecimento de Deus, da Doutrina ou instrução (Didaquê) da fé. Quem não tem fé pode também transmitir conceitos, mas só o homem de fé pode transmitir e testemunhar a fé, porque o testemunho está intimamente relacionado com a EXPERIÊNCIA, evoca um sentido mais pessoal. CONHECER no contexto bíblico tem o sentido de EXPERIMENTAR (Lc 1, 34), isto é, ser íntimo, fazer-se próximo, estabelecer relação. Por isso no terreno da fé o conhecimento é fruto de uma experiência de intimidade entre o homem e Deus. Conhecer a Deus é fazer uma experiência com Ele. E se o conhecimento de Deus é a condição fundamental para a evangelização, a “testemunha” é, portanto, todo aquele discípulo missionário que experimentou (e experimenta) Deus.

Para entendermos um pouco mais sobre a beleza e a responsabilidade que é ser testemunha de Cristo, tomemos um ensinamento do Cardeal Karol Wojtyla em 1978, então Arcebispo de Cracóvia. Para ele, o testemunho se dá em 3 dimensões interligadas entre si: “1º com A PALAVRA que não é apenas informação, é anúncio e pregação; 2º com AS OBRAS, que provém da palavra pregada (as obras dão testemunhas por si mesmas, são a fecundação da fé e ao mesmo tempo seu apoio e base); 3º Por meio das palavras e das obras, o testemunho abarca toda a existência do homem, sendo, portanto, um TESTEMUNHO DE VIDA. E se ocorre o caso do testemunho particular da morte, então a morte é, justamente nesse caso, diante de todo o cumprimento da vida, sua marca fidedigna.”

O Papa Francisco, numa das suas homilias matutinas, ao falar também sobre o sentido do martírio, nos diz que a vida do cristão é marcada por um «duplo testemunho»: «o Espírito nos dá o testemunho de Jesus e nós damos o testemunho com a força do Espírito do mesmo Senhor». Sim, para compreendemos melhor esse “duplo testemunho” basta recordarmos das palavras do próprio Cristo: “Quando vier o Espírito da verdade, que vem do Pai dará testemunho de mim. Mas também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio” (Jo 15,26-27). Cristo é por excelência a Testemunha fiel (Ap 1, 5); Aquele que dá testemunho da verdade; Aquele que dá testemunho de si mesmo (Jo 8,18); Aquele cuja as obras que faz dão testemunho de que o Pai o enviou (Jo 8, 36); Aquele que tem o testemunho do Pai a seu respeito (Jo 8, 37). Mas Cristo, por sua vez, convoca os homens como testemunhas, busca aqueles que “serão suas testemunhas” (At 1, 8).

De fato, só por meio do testemunho de Cristo podemos mudar o mundo. A humanidade de hoje precisa de um testemunho pascal. De um testemunho cristão que não se envergonhe de ser “sal da terra e luz do mundo”. Pois, quem esconde a luz e não deixa o sabor de Cristo por onde passa, certamente dá um contratestemunho. O mundo necessita e espera que cada vez mais surja dos nossos movimentos, grupos jovens, pastorais, Grupos de Estudo, comunidades, associações, paróquias, dioceses, verdadeiras testemunhas de Cristo. Homens e mulheres que mesmo sendo poucos e pequenos, queiram deixar os rastros de Deus sobretudo fora da Igreja, nas estradas desse mundo. Sim, como diz o Papa Francisco: “todos somos chamados a dar aos outros O TESTEMUNHO EXPLÍCITO DO AMOR salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfeição não deve ser desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante para não nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer. O TESTEMUNHO DE FÉ, que todo o cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São Paulo: «Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente» (Fl 3, 12-13).”  (Evangelii Gaudium 121)

 

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