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14/03/2018

Liturgia: Um caminho de Contemplação do Mistério Cristão

Por Jerônimo Lauricio

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Dando continuidade à nossa reflexão sobre a LITURGIA, hoje queremos nos deter em um aspecto da dimensão celebrativa da fé professada: o mistério. No artigo anterior, vimos que “cada celebração sacramental – isto é, a Liturgia – é um lugar privilegiado de ORAÇÃO, do nosso ENCONTRO pessoal com o mistério da Trindade” (CIC 1153). É, pois, sobre esse “mistério divino” que hoje queremos partilhar um pouco.

SACRAMENTO E MISTÉRIO

Sabemos que “SACRAMENTO” – em seu sentido cristão mais amplo e antigo – se refere à revelação do “mistério” eterno e oculto em Deus. Em grego, “mysterion” está ligado originariamente ao culto; indica o fechamento dos olhos ou da boca diante da experiência que não se pode formular em palavras. MISTÉRIO é, portanto, a única palavra que podemos articular para falar da realidade divina e invisível. Juntas, estas duas palavras, “mistério e sacramento”, se referem à dupla dimensão “escondida e revelada” do plano de Deus para a humanidade. Como isso é possível? “Os sacramentos revelam os mistérios espirituais por meio de sinais visíveis, com os quais os cristãos podem experimentar a presença de Deus” (YOUCAT, p. 104).

Pois, sendo o homem um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais por meio de sinais e de símbolos materiais. Como ser social, o homem tem necessidade de sinais e de símbolos para comunicar-se com o seu semelhante através da linguagem, dos gestos e de ações. Vale o mesmo para sua relação com Deus. Deus fala ao homem através da criação visível. O cosmos material apresenta-se à inteligência do homem para que leia nele os traços do seu Criador. A luz e a noite, o vento e o fogo, a água e a terra, a árvore e os frutos, tudo fala de Deus e simboliza, ao mesmo tempo, a sua grandeza e a sua proximidade. Enquanto criaturas, essas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão da ação de Deus que santifica os homens e da ação dos homens que prestam a Deus o seu culto. O mesmo acontece com os sinais e símbolos da vida social dos homens: lavar e ungir, partir o pão e beber do mesmo copo podem exprimir a presença santificante de Deus e a gratidão do homem para com o seu Criador” (CIC 1146-1148).

JESUS CRISTO, UM MISTAGOGO?

Se, de acordo com as Escrituras, “a glória de Deus é ocultar uma coisa, e a glória dos homens é contemplá-la” (Pr 25,2), uma questão então se impõe a nós: Como podemos contemplar aquilo que está oculto? Alguns dos Padres da Igreja, como Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno, afirmam que “somente o mistério pode desvelar plenamente o mistério”.[1]  Isso significa dizer que a revelação do mistério de Deus é um ato de Deus mesmo, assim como a Liturgia é fundamentalmente uma Obra de Deus – Opus Dei.

No Antigo Testamento, o profeta Daniel, ao receber a ordem de explicar ao rei da Babilônia, Nabucodonosor, a revelação do mistério que recebera “numa visão noturna” (Dn 2,19), lhe responde que revelar os mistérios lá do alto é obra de Deus unicamente (cf. Dn 2,27-28). São Paulo, em sua Carta à comunidade dos Colossenses, nos recorda que Jesus Cristo, a Palavra de Deus, “é o mistério escondido desde os séculos e desde as gerações, e agora manifestado aos seus santos” (Cl 1,26). A Boa-Nova que, portanto, nos transmite o Evangelho é que o que estava “escondido” em Deus desde toda a eternidade foi “revelado” em Jesus. É nessa esteira que o autor da Carta aos Hebreus (Hb 1,1-2) também caminha, nos reafirmando que “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai nos disse tudo” (CIC 65). Mas Cristo não veio apenas para “dizer”, e sim, também, para “explicar”, como podemos constatar no Evangelho de João: “A mulher samaritana lhe disse: ‘Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando Ele viver, nos explicará tudo’. Disse-lhe Jesus: ‘SOU EU, que falo contigo”.

Voltando ao apóstolo Paulo, vemos que o mistério é a “vontade de Deus”, que é a de “encabeçar todas as coisas em Cristo, tudo o que existe no céu e na terra” (Ef 1,9-10) e, por isso, em síntese, é o próprio Cristo revelado plenamente no seu mistério pascal: paixão, morte e ressurreição.

Para Paulo, portanto, Cristo não é apenas o revelador do mistério, mas é Ele mesmo o mistério de Deus. E se somente o mistério revela o próprio mistério, significa dizer, portanto, que os “sinais assumidos por Cristo nos permitem contemplar e conhecer os mistérios do Reino de Deus” (CIC 1151). Em duas palavras: Mistério-glória invisível; sacramento-sinal visível daquele mistério invisível. Por isso, Jesus é, por assim dizer, o “Mistagogo de Deus”, aquele que nos introduz em seu mistério por meio dos sinais visíveis dos sacramentos que celebramos, sobremaneira o da Eucaristia.

Assim como os “dois Padres Gregórios” da Patrística, também Cirilo de Alexandria, no comentário ao Evangelho de Lucas, meditando o episódio do ensinamento de Jesus à multidão de Cafarnaum e a cura do endemoninhado que ele relata logo em seguida, afirma: “Era útil e necessário que, frequentemente, Cristo fizesse seguir às suas mistagogias os milagres”.[2] Portanto, também Cirilo não hesita em logo definir como mistagogia os ensinamentos de Jesus às multidões, fazendo assim de Jesus um mistagogo e de seus ouvintes, aqueles que são iniciados nos divinos mistérios.

 AFINAL, O QUE É MISTAGOGIA? E QUAL A SUA RELAÇÃO COM A LITURGIA?

A mistagogia está intimamente ligada à realidade do mistério de Deus. Antes de explorar esse termo, vamos falar um pouco de outra palavra: a PEDAGOGIA. Etimologicamente, o termo pedagogia vem do grego antigo “paidagogós”, uma palavra composta por paidos (“criança”) e gogía (“conduzir” ou “acompanhar”). Ou seja, o pedagogo era, na Grécia Antiga, aquele preceptor, guia, que, literalmente, conduzia as crianças à escola. Atualmente, denomina-se pedagogo o profissional cuja formação o torna especialista nos assuntos relacionados à Educação por excelência.

Pois bem, se a pedagogia está voltada para o “processo educativo do saber”, de modo análogo podemos dizer que a mistagogia está inclinada, portanto, para o “processo educativo da fé”, por meio da iniciação e vivência dos sagrados mistérios contidos nas Escrituras e na Liturgia.[3] E, nesse sentido, o objeto de conhecimento é único: o mistério de Deus. O método de conhecimento é para ambas um só: a mistagogia. O grande liturgista francês René Bornet, indica-nos que a mistagogia é “explicação oral ou escrita do mistério escondido na Escritura e celebrado na Liturgia”. Em outro momento falaremos da dimensão bíblica da mistagogia. Por ora, importa-nos compreender qual é de fato a sua relação com a Liturgia

Na tentativa de encontrar essa resposta, vamos recorrer à Sacrosanctum Concilium, no número 7, que nos ensina assim: “toda ação litúrgica é ação de Cristo”. Se a mistagogia é a realização de uma ação sagrada, ela é também, por efeito, uma ação litúrgica enquanto uma Obra de Deus em favor de seu povo e, em particular, a celebração dos sacramentos da iniciação cristã. Em outras palavras: a liturgia, enquanto celebração dos mistérios, é também em si mesma uma mistagogia, pois o mistério se revela quando é celebrado. Por isso não há liturgia sem mistagogia. Fazer mistagogia é acompanhar, conduzir, instruir alguém no caminho da fé, pois não há vida litúrgica enraizada e fecunda sem o conhecimento do mistério celebrado na liturgia.

Quando a Igreja faz mistagogia, torna-se serva de Cristo mistagogo e dá aos homens de boa vontade a possibilidade de se tornarem participantes do mistério de Deus. Bem tinha razão São Leão Magno ao dizer que “o que era visível no nosso Redentor passou para os seus sacramentos na Igreja” (YOUCAT, p. 106). Isso significa dizer que, uma vez que Cristo é o “mistagogo de Deus”, Ele próprio abre, portanto, a mente e o coração da Igreja para a compreensão da fé que ela celebra em cada culto litúrgico. Só a nossa inteligência não basta para compreender os sagrados mistérios escondidos na liturgia e, ao mesmo tempo, revelados nos sinais dos sacramentos. Portanto, só deixando-nos ser conduzidos por Cristo na escola da fé, que é a sua Igreja, é que podemos seguramente caminhar contemplando o Mistério de todos os mistérios: o mistério pascal, no qual fomos enxertados em nosso batismo e do qual certamente nos deteremos no próximo texto formativo.

REFERÊNCIAS:

[1] Boselli, G. O sentido espiritual da Liturgia. Brasília: CNBB, 2014, p .18

[2] Cirilo de Alexandria. Commento al Vangelo di Luca 4, 31, PG 72, 545.

[3] Bornert, R. Les commentaires bysantins de la Divine Liturgie. Paris: Institut Français d’Études Bysantines, 1966, p. 29.

1 comentário

14/3/2018

Maria Dulce de Freitas Muzogiti

Texto muito bem redigido De fácil compreensão e muito enriquecedor. Parabéns.