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16/08/2019

GUARDAR E CULTIVAR A BELEZA DA CRIAÇÃO

Por Jerônimo Lauricio

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O autor sagrado no primeiro capítulo do gênesis, nos mostra que no princípio a terra era sem forma e vazia (Gn 1,2). Não havia ordem, nem separação de nada. Era uma terra desorganizada. Então Deus ao dar origem a todas as coisas, o faz em um movimento do caos para a ordem. Em hebraico o termo original “TOHU”, no grego, CHÁOS (caos) significa algo não estabelecido, não formado, confuso, no vácuo (Sl 33,6-9; 148; Jr 4,23; Is 45,18).

Se o primeiro livro da Bíblia diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra”, o último livro da Bíblia diz: “Digno és tu, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, honra e poder; pois foi Tu que criastes o UNIVERSO, e por tua vontade, ele não era e foi criado” (Ap 4,11). Por isso, podemos dizer que quase que exatamente no meio da bíblia, quando rezamos o Salmo 18, contemplamos o manifestar-se de Deus através da beleza da Criação: “os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”.

Deus cria o “COSMOS” (do grego kósmos), que literalmente significa “bem ordenado, organizado, harmonizado, belo” e metaforicamente “mundo”, e é contrário ao conceito de caos (feio ou desordenado). É daí que encontramos também a mesma origem da palavra cosmético, ou seja, aquilo que deseja imprimir beleza. Cosmos é o mesmo termo que designa o UNIVERSO em seu conjunto, toda a estrutura universal em sua totalidade, desde o microcosmo ao macrocosmo. “Pela fé compreendemos que o UNIVERSO foi organizado pela palavra de Deus” (Hb 11,3). Uma vez que o gesto criador de Deus traz ordem, confere beleza e imprime perfeição, a beleza da criação se reconhece, portanto, pelo ordenamento de todas as coisas. Isso significa dizer, que o desejo e a atração que cada homem traz em seu coração e em seus olhos por tudo aquilo que é essencialmente belo, para ser puro e autêntico, precisa trilhar o caminho da virtude da ordem. Sem ordem não há beleza e vice-versa. Tudo se torna inevitavelmente um caos. Não sem razão é o fato de que quando vemos um belo quadro ou ouvimos uma bela música, temos a sensação de ordem, harmonia. O contrário é verdadeiro. Tudo isso é sinal de que no coração do homem habita um eco daquela Beleza Divina do princípio da criação.

 

  1. A CRIAÇÃO COMO DOM E TAREFA

Do DOM da “beleza original da criação”, veio uma TAREFA: “Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2,15). O verbo hebraico “abad”, (trabalhar, servir) é usado aqui na narrativa para designar o termo “cultivar” (Gn 2,5.15; 3,23; 4,2.12). Ou seja, o homem é chamado a ser um administrador dos bens da criação, um guardião e cultivador da destinação universal dos bens, como nos ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja:

“Porque o homem, criado à imagem de Deus, recebeu a missão de submeter a terra e todas as coisas que nela existem, de governar o mundo na justiça e na santidade, e de, reconhecendo a Deus como Criador de todas as coisas, orientar para Ele o seu ser, bem como o universo inteiro, de tal maneira que, sujeitas todas as coisas ao homem, o nome de Deus seja glorificado em toda a terra” (CDSI – 456))

Também o Catecismo nos ensina assim:

“No começo, Deus confiou a terra e seus recursos à administração comum da humanidade para que cuidasse dela, a dominasse por seu trabalho e dela desfrutasse. Os bens da criação são destinados a todo o gênero humano” (2402).

A criação não era apenas o lugar do trabalho, mas também da mais perfeita harmonia: com o Criador, com a criação e consigo mesmo.  O Jardim era o lugar que homem “criado à imagem de Deus, era sujeito da Aliança, isto é, sujeito constituído como pessoa, constituído à altura de companheiro do Absoluto” (TdC 6, 2), como nos ensina São João Paulo II em uma das suas Catequeses da Teologia do Corpo.

Por isso, que nesta mesma esteira, o Papa Francisco na Encíclica da Laudato Si (217), nos recorda que: “viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa”.

  1. NA BELEZA DA CRIAÇÃO CONTEMPLA-SE O CRIADOR.

Um outro verbo hebraico para compreendermos o nosso chamado para servir à beleza da criação é “SHAMAR” que é usado no original do texto na narrativa para designar o termo “guardar, preservar, manter” (Gn 2,15; 3,24; 4,9; 17,9). Embora a natureza, na figura do Jardim do Éden, tenha sido criada para o homem, sua vocação não era apenas enobrecê-la por seu trabalho, mas também preservá-la de todo e qualquer mal.

O DOCAT (257) nos ensina que “o imperativo de preservar a criação não pode significar que como cristãos devemos proteger a natureza em si como se tratas de um objeto que merece cuidados especiais”. Ao contrário, preservar significa também manter dentro dos limites daquela beleza original da obra da criação, que por sua vez revela o Criador. “São Francisco, fiel à Sagrada Escritura, propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: «Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador» (Sab 13,5) e «o que é invisível n’Ele – o seu eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras» (Rm 1,20)” (Papa Francisco, Laudato Si – 12).

Portanto, servir à beleza da criação é dar testemunho e ensinar que ela se tornou um lugar onde se faz possível conhecer e reconhecer a onipotência do Senhor e a sua bondade.  Quando a Igreja se torna servidora dessa beleza, ela assume uma atitude de gratidão e reconhecimento, porque de fato, o mundo nos reconduz ao mistério de Deus que o criou e o sustenta. “Se se coloca entre parentes a relação com Deus, esvazia-se a natureza do seu significado profundo, depauperando-a. Se, ao contrário, se chega a descobrir a natureza na sua dimensão de criatura, é possível estabelecer com ela uma relação comunicativa, colher o seu significado evocativo e simbólico, penetrar assim no horizonte do mistério, franqueando ao homem a abertura para Deus, Criador dos céus e da terra. O mundo se oferece ao olhar do homem como rastro de Deus, lugar no qual se desvela a Sua força criadora, providente e redentora” (CDSI – 487).

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