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01/12/2019

A diaconia da bondade na Igreja

Por Jerônimo Lauricio

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O primeiro capítulo do gênesis, com a apresentação solene da obra criadora divina, nos fala de uma “bondade fundamental”. Tudo o que Deus cria desde o princípio é belo e cheio de bondade, que tanto o salmista, quanto o profeta depois dirão que “o Senhor é BOM, eterno é seu amor” (Sl 100,5; 135,3; Jr 33,11).

Quando olhamos atentamente para a narrativa da criação do mundo material, logo notamos que ela é poeticamente cadenciada por algumas repetições significativas. Por exemplo, é repetida seis vezes esta frase: “Deus viu que isso era bom” (v 4.10.12.18.21.25). E para concluir, na sétima vez, depois da criação do homem: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (v. 31). Este acento maior à bondade, surge no texto como se quisesse exprimir um grau elevado de “excelência” da obra da criação. A plenitude e a perfeição da bondade de Deus é a criação do homem, macho e fêmea. Na humanidade a bondade divina atingiu o seu ponto culminante. Nascemos da terra boa, por obra do Criador Bom. A bondade está no DNA da nossa humanidade, ainda que o pecado tenha lançado suas raízes no solo do coração humano.

Um outro aspecto interessante, que sobressai na narração do gênesis é que o Senhor cria pela força da sua palavra. No texto lê-se dez vezes a expressão “Deus disse” (vv. 3.6.9.11.14.20.24.26.28.29 – Vayomer Elohim), que ressalta o poder e a bondade da Palavra Divina. É a Palavra, o Logos de Deus, que se encontra na origem da realidade do mundo e do homem. Assim canta o Salmista: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro da sua boca, todo o seu exército… Porque Ele disse e tudo foi feito, Ele ordenou e tudo existiu” (33,6.9).

E quando lançamos nosso olhar sobre o Novo Testamento, ali aprendemos a identificar a obra da Criação com ação redentora do Logos Divino: “Tudo foi feito por meio dele e sem Ele nada foi feito” (Jo 1,3 ). “Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e invisíveis” (Cl 1,16). Cristo, Verbo Encarnado, a quem muitos cheios de grande admiração, diziam: “Tudo Ele tem feito bem. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem. Ele faz bem todas as coisas (Mc 7,31.37). Ele é personificação, a encarnação da autêntica bondade, a quem somos chamamos a seguir, servir e imitar.

  1. SERVIDORES DA BONDADE DIVINA

O Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, nos quis indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos. Dela destacamos 12 passos que nos ajudam a compreender como viver uma bonita Diaconia da Bondade:

  • O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem” (9)
  • “O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há de ser obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor” (39)
  • “Peçamos ao Senhor que nos faça compreender a lei do amor. Que bom é termos esta lei! Como nos faz bem, apesar de tudo amar-nos uns aos outros! Sim, apesar de tudo! A cada um de nós é dirigida a exortação de Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12,21). E ainda: «Não nos cansemos de fazer o bem (Gl 6,9)” (101)
  • “Um sinal claro da autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos” (130)
  • “Na homilia, a verdade anda de mãos dadas com a beleza e o bem. Não se trata de verdades abstratas ou de silogismos frios, porque se comunica também a beleza das imagens que o Senhor utilizava para incentivar a prática do bem.” (142)
  • “Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que nos possam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho” (168)
  • “A aceitação do primeiro anúncio, que convida a deixar-se amar por Deus e a amá-Lo com o amor que Ele mesmo nos comunica, provoca na vida da pessoa e nas suas ações uma primeira e fundamental reação: desejar, procurar e ter a peito o bem dos outros” (178)
  • “A parábola do trigo e do joio (Mt 13,24-30) descreve um aspecto importante de evangelização que consiste em mostrar como o inimigo pode ocupar o espaço do Reino e causar dano com o joio, mas é vencido  pela bondade do trigo que se manifesta com o tempo” (225)
  • Só pode ser missionário quem se sente bem, procurando o bem do próximo, desejando a felicidade dos outros. Esta abertura do coração é fonte de felicidade, porque «a felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20,35). Não se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade. Isto não é senão um lento suicídio” (272)
  • “No meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível. Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalhar-se” (276)
  • Há uma forma de oração que nos incentiva particularmente a gastarmo-nos na evangelização e nos motiva a procurar o bem dos outros: é a intercessão. (281)
  • Quando um evangelizador sai da oração, o seu coração tornou-se mais generoso, libertou-se da consciência isolada e está ansioso por fazer o bem e partilhar a vida com os outros. (282)

O profeta Miquéias no Antigo Testamento nos ensinou que “o bem consiste em pertencer a Deus, obedecer-Lhe, caminhar humildemente com Ele, praticando a justiça e amando a misericórdia (Miq 6,8”). Certamente esses 12 passos da Evangelii Gaudium podem ser como que um GPS a nos orientar seguramente na rota para viver e ensinar o que o profeta nos indicou.

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