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Comunicação

21/02/2017

Sobre muros, nacionalismos e fragmentações

Por Jakson F. de Alencar

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Em sua obra Global Village (Aldeia Global), McLuhan previa o fim de milhares de anos de fragmentação dos seres humanos, numa era de comunicação em que “todos os indivíduos, seus desejos e satisfações, estão copresentes” (1989, p. 94). Diversos autores seguiram essa mesma linha. Acabariam com os paroquialismos psíquicos, sociais, econômicos, políticos, com os velhos agrupamentos cívicos, estatais e nacionais que estariam se tornando “impraticáveis”. Mas a realidade está escapando dessas previsões.

As fragmentações não só continuam, como também aumentam, e os individualismos aumentaram exponencialmente. Embora tenha havido um aumento na consciência de planeta, de cultura, os agrupamentos sociais e nacionais e os separatismos continuam existindo em todos os lugares do mundo, tendendo a se reforçar, como reação às imposições de abertura. Mesmo em países consolidados há muito tempo, ganharam forças movimentos separatistas, como é o caso da Espanha com a Catalúnia e o País Basco, e da Escócia em relação ao Reino Unido, por exemplo.

Por todo o mundo as pessoas prezam seus países e na quase totalidade não abrem mão de sua nacionalidade, dos valores e cultura ligados a ela. Em geral, os países que mais propalaram o discurso do fim das fronteiras e nacionalidades são os que mais defendem as próprias. Caiu o muro de Berlim, mas levantaram-se outros de grande significado, como o existente entre os EUA e a América Latina; entre Índia e Bangladesh; Israel e Palestina; barreiras para dificultar a entrada de imigrantes na Europa; muros ou outras formas de barreiras e separações entre classes sociais no interior mesmo dos países e cidades.

David Harvey defende que não existem apenas os excessos e a competição dos interesses, das ambições, dos poderes, das explorações, que de resto favorecem o estado atual do mundo; não apenas as fúrias fanáticas que exacerbam os entrechoques culturais. Há também o fato de que tanto os individualismos ocidentais quanto os comunitarismos por toda parte se amplificam conjuntamente em todo o planeta e favorecem o mal primordial da incompreensão humana. Ao mesmo tempo, os fechamentos comunitários, em todas as civilizações, favorecem as incompreensões de povo a povo, de nação a nação, de religião a religião (Harvey, in: Por uma outra comunicação, p. 363-364).

Quando o outro é ameaça, quando tudo é aberto, cada um fecha-se nas próprias certezas e seguranças. Ampliam-se, assim, os isolamentos causados pela globalização: o isolamento dos excluídos dos mercados e dos que não têm acesso às tecnologias da comunicação e, o mais curioso, o isolamento dos que têm muito acesso a tudo isso, mas se fecham aos outros.

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