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Comunicação

22/06/2017

Redes Antissociais

Por Jakson F. de Alencar

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O surgimento da internet e sua propagação há até alguns anos despertaram sonhos e esperanças diversos: acabariam as fronteiras e divisões; governos autoritários seriam extintos; haveria uma magnífica construção coletiva do conhecimento em que todos participariam; seriam formadas autoestradas da informação, a sociedade da informação e um novo ser humano. Com o advento das chamadas “redes sociais”, o encantamento, que em grande parte continua, tem sido o mesmo. Supunha-se que criariam vínculos entre diferentes de maneira ilimitada, dentre outras expectativas.

Em parte, essas possibilidades se concretizaram. Inclusive, no Brasil, o pouco de vozes diferentes e independentes da grande mídia de direita, que ao longo da história tem encampado os pontos de vista e interesses dos 5% mais ricos da sociedade, tem tido espaço graças à internet. Mas as sociedades e estudiosos estão atônitos de como as redes digitais tem ido em sentido contrário a tantas das expectativas imaginadas.

A tão festejada primavera árabe tornou-se inverno árabe, colocando governos autoritários no poder. E em todos os lugares discursos de ódio, notícias falsas, agressividade, autoritarismo, preconceitos, racismo, machismo, acirramento de divisões de classes sociais encontraram terreno fértil nas redes digitais. Pessoas se agruparam por meio delas com essas afinidades, outros despertaram ou fortaleceram tendências que tinham latentes e outros são intoxicados ao frequentar e usar tais redes.

As expressões de agressividade não se dão em torno de grandes temas e questões políticas ou ideológicas. Mas é comum que temas os mais diversos e até assuntos banais se tornem motivo para comentários maldosos, grosseiros e agressivos. Há uma espécie de pulsão ou prazer por fazer polêmica em tais ambientes. As reações na rede costumam ser impulsivas, rápidas e desregradas. O teclado está à mão e o monitor ligado. Seu discurso não é dialógico, mas, muito mais monológico. Na sua frente não há olhos a serem encarados sob aprovação ou censura, mas só uma tela. Um ambiente que tem favorecido a projeção do que há de pior nas mentes e sentimentos das pessoas.

Temas falsos são propalados ou fortalecidos rapidamente com muitos comentários, “curtidas” ou compartilhamentos. As ondas de comoção virtuais em grande escala com assuntos falsos no todo ou em parte, verdadeiros tsunamis virtuais, ganharam até nome sugestivo na literatura especializada: “shitstorms” ou tempestades de merda (no mundo político, quem primeiro usou essa expressão foi Angela Merkel). Outro aspecto curioso é que, ao invés das infinitas interações com as diferenças, as pessoas estabelecem suas rotas costumeiras e bem conhecidas nas redes, fazem seus guetos, segmentações e levam para a rede as divisões, estereótipos e preconceitos que têm no mundo físico.

Imaginou-se que a internet e as redes digitais seriam uma apoteose da comunicação e se constata que a comunicação como interação e criação de entendimento está muito frágil. Segundo Dominique Wolton, em É preciso salvar a Comunicação (Paulus, 2006), essa frustação ocorre porque não basta apenas técnica e tecnologia para se comunicar, são necessários os valores humanísticos e democráticos, a capacidade de aceitação, respeito e troca com o diferente.

Essas constatações não simplesmente podem ser vistas como fator de pessimismo, mas alertam para que a humanidade não se esqueça que as técnicas, sem formação e orientação ética, sem humanismo e sem organização social, não fazem por si um mundo melhor e mais justo, nem muito menos o paraíso tecnológico e comunicacional.

 

2 comentários

18/12/2017

Leonardo Coelho

Excelente texto!

16/3/2018

Manoel Gomes

Acredito que nas redes se manifeste o individualismo e a pobreza de espírito tão presentes na sociedade atual. Seguindo o pensamento de Wolton, é perceptível a falta de formação de grande parte das pessoas para lidar com essa ferramenta que pode ser instrumentos de um mundo em que as pessoas sejam mais próximas e fraternas.