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Comunicação

28/03/2016

O declínio das teorias globalistas

Por Jakson F. de Alencar

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A partir da década de 1990 assistimos uma enorme “onda” em torno do tema “globalização”, inspirada pelo avanço das tecnologias, especialmente as de comunicação; pela emergência do neoliberalismo e de uma única grande potência econômica mundial, os EUA; pela aceleração do tempo e pelo aumento das trocas internacionais. As tendências internacionalizantes que vinham de antes foram aceleradas, açodadas e avançaram bem mais rápido que elas a as previsões futuristas e ufanistas que previram o fim da geografia, da diversidade cultural, o fim do significado da presença dos corpos e populações em lugares diferentes, das fronteiras e territorialidades, das fragmentações; o fim da história em um mundo homogêneo.  Essa onda teve conceituação e base empírica muito frágil, sustentanto-se mais em metáforas e previsões determinísticas lineares.

Atualmente essas narrativas todas estão em declínio, embora continue sendo o maior lugar comum dizer que “estamos em um mundo cada vez mais globalizado” e a repetição de diversos clichês enganadores a esse respeito.

A comunicação não abole a corporeidade e as territorialidades e não independe delas e da complexidade da vida e do mundo como se pensa nas teses globalistas; nem mesmo quando se usam as mais avançadas tecnologias. Não se trata de negar as tecnologias da comunicação atuais nem de defender o localismo, fazendo uma leitura binária da dialética entre globalização e tendências desglobalizantes. Trata-se de compreender as inflexões dos processos imbricados entre corpo, cultura e comunicação no mundo de hoje, que não confirmam narrativas tidas como consensuais há alguns anos.

Os níveis mundiais de integração continuam bastante baixos e o mundo está muito longe do que sugerem as teses da “aldeia global”; não está nem harmônico, nem justo, nem homogêneo e nem se enquadrou nos esquemas imaginados.

A aceleração das trocas culturais, da quantidade de informação circulando, o aumento das mídias e canais, embora propague produtos e informações iguais no mundo, ao invés de gerar a homogeneidade, está aumentando a diversificação e fragmentação, as resistências e até as intolerâncias. Dois terços da humanidade não tem acesso à chamada conexão total e mesmo para que tem, não quer dizer que por isso esteja tendo acesso ao repertório todo do mundo. A comunicação não é algo que colocado sobre essa complexidade do mundo a anule. As trocas culturais e comunicacionais, com a infinidade de variantes existentes no mundo, produzem resultados imprevisíveis e inesperados.

Há atualmente um boom de serviços, informações e aplicativos voltados ao local, ao mundo físico e à presença das pessoas neles ao invés da abolição da ancoragem territorial; há crescente interesse das empresas de internet, inclusive as gigantes, por se tornarem locais e localizadoras; o fato significativo de essas empresas e o que há de mais avançado nesse seguimento reunirem-se geograficamente em alguns locais, como é o caso do Vale do Silício, nos EUA e outros centros menores pelo mundo.

A verdadeira obsessão por mapear e controlar territórios, fluxos de informações e de pessoas; a obsessão pela segurança dos territórios demonstram de modo flagrante a importância que continua tendo e que continuará tendo, o território, as fronteiras e a presença dos corpos em lugares diversificados.

As chamadas mídias sociais, embora contribuam para a abertura ao mundo, reforçam a segmentação dos espaços, a fragmentação, o individualismo, são da ordem do mesmo, onde os semelhantes se atraem; criam-se rotas e territorialidades costumeiras no âmbito da internet e múltiplas e novas territorialidades na própria rede e nos espaços físicos. Estes não apenas são moldados pelas redes, mas também as estão moldando. O ciberespaço não só abriu fronteiras, mas também criou outras, que vão se sobrepondo, compondo multiterritorialidades. Imaginava-se a geografia domesticada pela economia mundial hegemônica e pelas tecnologias de informação e transporte, e ela volta em revanche, ilustrando cada vez mais os limites de ideologias modernistas, deterministas e mercadológicas.

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