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Comunicação

30/06/2015

Corpo, geografia e comunicação

Por Jakson F. de Alencar

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As teorias, impressões e crenças atuais sobre a possibilidade de simultaneidade entre fatos e pessoas distantes por meios das novas tecnologias de comunicação e informação e sobre abolição do espaço e do tempo têm como pano de fundo uma compreensão de comunicação que independeria do corpo e de sua presença em lugares diferentes.

O precursor e, de certa forma “pai” dessa linha de pensamento, chama-se Marshal McLuhan. Ao longo de seu livro Global village (Aldeia global), escrito em co-autoria Bruce Powers, por diversas vezes aparece a ideia de comunicação “desembodied” ou “discarnate” (descorporada ou discaranada).

Ou seja, a comunicação, com o uso das tecnologias pode mover-se na abstração, completamente independente do chão, do ambiente e do corpo.

Isso, segundo o livro possibilita “a capacidade de ser uma consciência presente em muitos lugares de uma vez”. Com a possibilidade da “des-corporação” oferecida pelas tecnologias de comunicação, os usuários perderiam, segundo o autor, laços identificatórios e geográficos e se tornariam uma espécie de “espírito” ou “fantasma” solto desses vínculos.

            É muito comum nos mais diversos textos e teorias sobre novas tecnologias da comunicação e sobre globalização que se diga que já não faz mais diferença estar em um lugar ou outro do mundo, ou que importam agora os fluxos de comunicação nas redes, sem levar em consideração a presença das pessoas em lugares diferenciados e sua existência corpórea não abolível. Entretanto, as diferentes territorialidades, as diferenças culturais, as imbricações da corporeidade com a cultura, com os ambientes locais e com a comunicação continuam importando e muito.

Harry Pross, teórico de mídia alemão, diz que o corpo é a mídia primária, primordial. Segundo ele, toda comunicação humana começa no corpo e termina no corpo. Mesmo que tenhamos um enorme aparato tecnológico de redes que interligam boa parte do mundo e que se possa comunicar por meios de avatares e fluxos eletrônicos que circulam por toda parte; mesmo com as mais avançadas tecnologias que houver, o corpo está presente nos pontos e nós da rede e essa presença marca a comunicação de qualquer maneira em todos os seus aspectos: o emissor, as audiências, as interações, os canais, as mensagens, as decodificações e as resistências e apropriações diferenciadas.

Não somos abstrações vagando no espaço aleatoriamente indiferentes aos locais onde estamos imersos; bem como as tecnologias da comunicação exigem o corpo como modulador das dinâmicas de exploração das interfaces midiáticas.

Nas pontas das redes há homens, sociedades, culturas, línguas, civilizações e não apenas computadores. Há a espessura da história e da geografia, diferente de um país ao outro.

A abertura ao mundo, a relação e a comunicação com ele não significam abolir toda e qualquer forma de ancoragem territorial. Não é possível habitar no mundo sem coporeidade, o que acontece, na vida cotidiana, em alguma forma de territorialidade.

A coporeidade é a base da heterogeneidade humana e da reciprocidade, características fundadoras da comunicação humana.

A imersão do corpo em um determinado local, apesar de toda a tecnologia, não pode ser abolida, assim como não há tecnologia que apague as existências de locais e presenças diferenciadas.

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