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Filosofia

19/10/2016

Política, um presente de grego!

Por Edson Pedroso

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Platão escreve um diálogo chamado Protágoras. Neste escrito promove o encontro entre duas grandes figuras do pensamento clássico, o filósofo Sócrates e o sofista Protágoras.  A discussão de fundo gira em torno do ensino, se é possível ensinar alguém a virtude ou a excelência sobre o mais nobre ofício de um cidadão ateniense… a política!

Nossa, mas logo a política é o mais nobre ofício! Que conversa estranha para o momento atual, haja vista o noticiário que sistematicamente vincula a política ao crime, a manipulação, a corrupção e a injustiça. Algo sujo que devemos banir de nosso cotidiano, de nossas famílias e escolas.

Pois bem, sobre este panorama propomos lançar duas sementes para reflexão. A primeira é pensar a política como um ‘saber’ não acabado e subjugado pela economia ou por interesses pessoais. A segunda é considerar a política como uma tarefa primordial para a manutenção, reprodução e desenvolvimento da vida sobre a terra. Neste sentido, é o afazer mais urgente que temos para empregar.

Platão irá evidenciar essa urgência, destacando a política como uma sabedoria herdada do próprio Zeus, o deus grego mais poderoso do Olimpo. Através do Mito de Prometeu, Platão acentua que somente coordenada pela sabedoria política à humanidade encontrará ordem e amizade na sociedade:

Quando os deuses existiam e resolveram forjar os mortais, ordenaram a Prometeu e seu irmão Epimeteu que distribuíssem as capacidades para cada raça de mortais de forma conveniente, de modo que nenhuma raça se extinguisse. Porém, como Epimeteu não era muito sábio, depois de ter oferecido a todas as espécies de animais os meios para sua conservação, não percebeu que esgotou todas as capacidades com os animais, e lhe restara a raça humana que ficou desprovida de tudo. Prometeu veio ver a distribuição e percebeu que o homem ficou despojado, descalço, descoberto e indefeso. Não sabendo que meio de salvação inventar para o homem, rouba de Hefesto e Atenas sua sabedoria técnica e o fogo, e a doa para o homem. Desse modo o homem teve a sabedoria técnica necessária para a vida, mas não recebeu a sabedoria política, porque esta se encontrava junto de Zeus e sua morada era bem guardada. Dai vieram para o homem os seus recursos para a vida. Inventou suas casas, seus vestidos, calçados, coberturas e alimentos do campo. Vivia disperso pelo mundo e não existiam cidades. Apesar de possuir a sabedoria técnica, seu conhecimento não era suficiente para proteger-se contra as feras. Tentavam reunir-se e fundar cidades para se protegerem das feras, porém se atacavam uns aos outros, pois faltava a ‘sabedoria política’. Então Zeus, para que a raça humana não se extinguisse, enviou Hermes para distribuir a justiça e a prudência, a todos os humanos, para que houvesse ordem e amizade nas cidades (Mito de Prometeu).

Como vemos no mito, para Platão os conhecimentos técnicos não garantem a sobrevivência do homem, ou seja, não são capazes de dar uma resposta ao potencial conflito entre os homens que já dispõem de técnicas, mas não do seu uso correto. Se não forem coordenados pela sabedoria política que conhece o que é melhor, estabelecendo limites e medidas.

Obrigado a construir o próprio mundo pela carência de um elaborado sistema de instintos, o ser humano inventa costumes, constrói habitações, remodela a natureza e idealiza um mundo possível e melhor. A sabedoria política dirige o processo quando escolhe ‘o que fazer’, porque procura conhecer o que é o melhor para o conjunto dos cidadãos.

O exercício dessa capacidade que a natureza empresta aos homens será o propulsor para a descoberta da justiça, da ética, do limite e da força necessária para a manutenção da ordem social. O homem é por natureza um animal político e essa condição é que o diferencia dos deuses e dos outros animais.

A busca por uma vida boa e feliz passa necessariamente pela construção de uma sociedade participativa. Esse é o ideal grego que persiste em nos inspirar.

Acaso não seja esse um presente!

Sabemos que o desafio imposto pela realidade política, especialmente brasileira, é gigantesco. Porém, se afastar ou deixar de acreditar na política como promotora do bem, é permitir que seja operada por interesses estranhos à justiça e o bem comum.

Somos chamados a participar, pois quem não faz política, opta pela política feita por outros!

Qual é a sua opção?

2 comentários

19/10/2016

marco@cocel.com.br

Política, um presente de grego!

21/10/2016

Regina Céli Whitaker

Entendo política, numa perspectiva abrangente, como a "arte do uso do poder" e acredito que somos, por nossa própria condição humana, seres políticos. O desafio parece-me estar na política pública, pois há poucos "artistas" - o que não significa que não existam - basta olharmos para o Papa Francisco que é a referência mais importante da Igreja Católica, é Chefe de Estado do Vaticano e, para tanto, um grande "artista" na política, pois tem a sabedoria de fazer o bom uso do poder!