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Religião e Comunicação

24/04/2019

Rumo ao 53º Dia Mundial das Comunicações

Por Darlei Zanon

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Confesso que a princípio, após uma leitura rápida e superficial da mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações deste ano, fiquei um pouco decepcionado, porque parecia ser um conteúdo que não dava continuidade ao caminho feito pela Igreja no que diz respeito à comunicação, especialmente em relação à comunicação digital em rede. Esta última mensagem não parecia dar continuidade às mensagens de Bento XVI e às primeiras mensagens do próprio Papa Francisco, que sempre se expressaram com uma visão positiva da internet, convidando a uma presença ativa nas redes sociais. Naquela primeira leitura, pareceu-me um discurso distante também da visão atual da comunicação que se torna “ambiência”, condição habitativa, e de conceitos como sociedade em rede e onlife, este neologismo que indica a indissociabilidade entre online e offline, a fusão entre analógico e digital, entre presencial e virtual, superando o dualismo digital.

Quando, porém, procurei aprofundar a mensagem e entender qual é a intenção do Papa Francisco, encontrei uma grande coerência entre a presente mensagem e o seu magistério, especialmente no que diz respeito à insistência em uma “Igreja em saída” e na “cultura de encontro”, em uma comunicação humana e relacional ao invés de uma comunicação simplesmente instrumental e técnica. Entendi então que o Papa quer nos conduzir a um salto qualitativo na compressão da comunicação, libertando-a de adjetivos como “social” e “de massa” para retomar seu significado e conceito originais enquanto relação e comunhão.

A primeira coisa a ter em mente para entender a mensagem do Papa é que uma rede social (network community) é algo diferente de uma comunidade. De fato, do anúncio do tema à publicação da mensagem, o título foi alterado para enfatizar essa diferença. No início, o título foi anunciado simplesmente como: “Das ‘community’ às comunidades”. O título atual é: “Das comunidades de redes sociais à comunidade humana”. Tenho certeza que para o Papa o primeiro título era suficiente, porque as redes sociais (community) não são plenamente comunidades. No entanto, para evitar qualquer confusão, é melhor especificar.

Sobre esse tema, recordo uma conferência do grande sociólogo Zygmunt Bauman. Segundo ele, a comunidade precede a pessoa, uma pessoa nasce “dentro” da comunidade, como parte da comunidade; enquanto uma rede social (community) é criada e mantida por duas ações precisas: connecting e disconnecting. A grande atração de uma rede social é a facilidade de conexão, mas sobretudo de desconexão. Não há nenhum sofrimento, nenhuma ruptura ou tristeza ao romper um relacionamento, ou a chamada “amizade”. Basta um simples clique. Coisa muito diferente acontece em uma comunidade presencial. São muitas as consequências, normalmente com dor e sofrimento. Isso significa que em uma rede social não há conexão plena, não existe relação completa, verdadeira comunhão entre as pessoas. O Papa quer que reflitamos sobre esses elementos. Ele quer nos ajudar a entender a lógica por detrás das redes sociais, tão difundidas e envolventes. Uma lógica que nos leva ao encontro de muitas realidades e pessoas, mas que, ao mesmo tempo, pode nos conduzir à solidão, à indiferença, ao preconceito, à exclusão, ao isolamento, ao individualismo, ao cyberbullying, etc.

O foco na comunidade entendida por Francisco como uma rede solidária (não só social) nos conduz imediatamente para a centralidade da escuta e do diálogo no processo comunicativo, conceitos muito estimados pelo Papa, verdadeiros pilares de seu magistério. Os algoritmos usados ​​para mover as redes sociais frequentemente nos levam ao que o filósofo Byung-Chul Han chama de “A expulsão do outro”. Em um pequeno mas denso livro, Han explica os mecanismos que nos levam a aproximarmo-nos cada vez mais do igual e afastarmo-nos do diferente, a ver o “outro” como um inimigo, uma ameaça (por exemplo o migrante-refugiados na Europa hoje). Excluir o outro significa afastar-se do próximo, mas um “eu” estável só nasce em confronto com o “outro”. A excessiva e narcisista referência a si mesmo gera um sentimento de vazio. Assim escreve Han: “Hoje, perdemos cada vez mais a capacidade de ouvir o outro. O crescente foco no ego e a “narcisização” da sociedade tornam sempre mais difícil o exercício da escuta. (…) A escuta convida o outro a falar, abre-lhe espaço para a sua alteridade. A escuta é um espaço de ressonância para a livre expressão do outro. A escuta pode, assim, ser terapêutica. (…) Sem a presença do outro, a comunicação se torna uma simples troca acelerada de informações, não estabelece relações, mas apenas conexões” (Han, p. 31 e 91). A mensagem do Papa nos apresenta essa mesma ideia com outras palavras, afirmando que nos tornamos “pessoas” apenas em confronto e em relação uns com os outros: “voltado para o outro, comprometido com os outros”. Caso contrário, permaneceremos simples “indivíduos”: “para ser eu mesmo, preciso do outro. Só sou verdadeiramente humano, verdadeiramente pessoal, se me relacionar com os outros” (Francisco). Apenas em comunhão e em relação.

Através da mensagem deste ano, o Papa nos alerta para os perigos de uma comunicação simplesmente instrumental, uma simples “conexão” que elimina as verdadeiras “relações”. A verdadeira comunidade existe apenas quando baseada na escuta, no diálogo e nos relacionamentos. Assim enfatiza a mensagem: “Uma comunidade é tanto mais forte quando mais for coesa e solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis. Como rede solidária, a comunidade requer a escuta recíproca e o diálogo, baseado no uso responsável da linguagem.” (Francisco)

A rede é uma oportunidade para promover o encontro com os outros”, reconhece o Papa… Mas este não é um processo natural e imediato. Precisamos trabalhar nessa transição das communities (redes sociais) para comunidades, para não deixar que os verdadeiros laços e relacionamentos se deteriorem, como os bytes de um arquivo digital danificado. Não podemos nos limitar às redes sociais, mas a partir delas, isto é, aproveitando as oportunidades e ferramentas que elas nos oferecem, promover verdadeiras comunidades humanas. Promover um salto qualitativo em nossos relacionamentos e comunicação, buscando a complementaridade entre on-line e off-line, entre presencial e virtual, sem esquizofrenia.

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