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Religião e Comunicação

08/05/2019

De “potenciais” a “verdadeiras comunidades “: 53º Dia Mundial das Comunicações

Por Darlei Zanon

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Na mensagem para o 53º Dia Mundial das Comunicações, depois de refletir sobre as metáforas da rede e da comunidade, o Papa Francisco nos introduz o conceito de “corpo”, recorrendo a um dos maiores especialistas em comunidades e comunicação: o Apóstolo são Paulo. De fato, as estratégias de Paulo podem nos iluminar muito neste momento histórico, por exemplo a maneira como ele escutava, acolhia e se fazia acolher, seu zelo e autenticidade, multiculturalismo e multimedialidade, sua rede de colaboradores, etc. O Apóstolo Paulo fundou e animou muitas comunidades. Ele criou uma verdadeira rede de comunidades, com uma exemplar complementaridade entre o presencial e o virtual (especialmente através de suas cartas). Ele usou a virtualidade com perfeição para se fazer presente nas comunidades, para ouvi-las, para dialogar com elas e assim manter a sua unidade e a coesão. Ele construiu uma verdadeira e profunda rede de colaboração e de solidariedade. Ao contrário dos algoritmos atuais, são Paulo procurou valorizar a alteridade e a diferença para promover a comunhão em torno de Cristo e do seu Evangelho. A discussão com Pedro em Jerusalém e a sua missão entre os pagãos são exemplos claros disso.

Efésios 4, Romanos 12, 1 Coríntios 12 e diversas outras passagens bíblicas nos lembram que somos muito diferentes uns dos outros, mas que juntos formamos um só corpo, uma comunidade. A consciência das diferenças e de que somos parte de um corpo único nos extrai da nossa autorreferencialidade e nos faz ir ao encontro do outro, a acolher o outro, o diferente… Conduz-nos a novas formas de relacionamento: sem preconceitos, sem limites, sem impor condições… “Leva-nos a refletir sobre a nossa identidade”, como um ser-em-relação. Em geral, estamos mais habituados a “falar” (a lógica do púlpito – de maneira impositiva e hierárquica) aos destinatários do que a “escutá-los” (lógica da ágora/areópago – mais horizontal e sinodal). Daí a importância de empenharmo-nos em uma conversão de atitude para promover momentos e instrumentos que criem laços e favoreçam as relações, ponto de partida para oferecer a “verdade” (o Evangelho e conteúdo de qualidade) às pessoas. As “relações” tornam-se, assim, um elemento chave da prática comunicativa e da “nova” evangelização. Quanto mais conseguirmos nos comunicar entre nós, mais nos aproximaremos, mais nos conheceremos, mais nos amaremos (seguindo o exemplo da Trindade), mais corresponderemos ao plano de Deus para a humanidade.

A rede, nesse sentido, não está em oposição às comunidades. Também as redes sociais digitais são humanas, porque compostas de pessoas e porque favorecem o encontro com e entre pessoas. O grande desafio hoje é transformar essas “potenciais comunidades “ em “verdadeiras comunidades”. É importante lembrar que a origem do termo virtual vem do latim virtus (significa capacidade, força, aquilo que existe como potencialidade), portanto não está em oposição ao “real” mas sim ao “atual” e ao “presencial”.

Isto para dizer que uma comunidade virtual tem o potencial para se tornar uma comunidade presencial, este é o seu propósito. Na mensagem deste ano o Papa nos convida e provoca a sermos os promotores, os agentes, os protagonistas desta mudança ou evolução: “O panorama atual convida-nos a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade.” Francisco nos convida a habitar (e não apenas utilizar) a rede com autenticidade e coerência, procurando transformar as redes sociais em verdadeiras comunidades relacionais humanas, e não apenas utilizando-as de maneira técnico-instrumental. Isso significa deixar a “rede de fios” para promover a “rede de pessoas”. Significa construir novas formas de comunidade em rede. Enfim, a mensagem nos convida a deixarmo-nos guiar pelo “amém”, que gera comunhão e unidade, e não pelo “like”, que leva à competição e ao narcisismo.

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