{"id":7444,"date":"2022-12-12T16:29:24","date_gmt":"2022-12-12T19:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=7444"},"modified":"2022-12-23T11:30:42","modified_gmt":"2022-12-23T14:30:42","slug":"carta-de-uma-jovem-jornalista-brasileira-aos-jovens-do-lado-de-la","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/carta-de-uma-jovem-jornalista-brasileira-aos-jovens-do-lado-de-la\/","title":{"rendered":"Carta de uma jovem jornalista brasileira aos jovens do lado de l\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Autora: Larissa Lopes*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>* Larissa Lopes \u00e9 estudante de Jornalismo na FAPCOM (Faculdade PAULUS de Comunica\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A quem esteja lendo,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chamo-me Larissa Lopes, tenho 20 anos e moro no estado de S\u00e3o Paulo, uma das 27 unidades federativas do Brasil. Dividimos a mesma gera\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 21 que circula neste planeta que chamamos de Terra. Mas, tenho certeza, essa deve ser uma das poucas \u2014 e talvez a \u00fanica \u2014 coisa em comum que compartilhamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em minha cabe\u00e7a de crian\u00e7a do ocidente, por muito tempo achei que todos no mundo viviam como eu, afinal o olhar de uma crian\u00e7a \u00e9 inocente, ignorante, enxerga apenas a brincadeira e espera as horas de comer, dormir e brincar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, uma crian\u00e7a que vive em contextos de guerra e viol\u00eancia, certamente, n\u00e3o ter\u00e1 as mesmas \u201cresponsabilidades\u201d que tive. Quando cresci a ponto de ter idade para a escola, adorava especialmente as aulas de L\u00edngua Portuguesa, Hist\u00f3ria e Geografia. Sempre fui \u201cde Humanas\u201d, como costumamos dizer aqui no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro-me de um dia na escola: eu estava no sexto ano escolar, tinha apenas 11 anos e havia me enfiado em uma sala de aula durante o intervalo \u2014 per\u00edodo em que, normalmente, as crian\u00e7as est\u00e3o comendo e correndo com seus amigos. Nesta escola, eu n\u00e3o tinha muitos amigos, mas adorava estudar. Ent\u00e3o, l\u00e1 estava eu, na sala de aula, fora do hor\u00e1rio, diante de um mapa mundi enorme que ficava colado na parede; era a \u00fanica sala da escola que tinha um exemplar daqueles. Fiquei olhando, fascinada, de um continente para o outro, observando as fronteiras, as cores, imaginando o quanto eu era pequena diante de tantos territ\u00f3rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei dizer ao certo o motivo, mas desde crian\u00e7a acho que sou um esp\u00edrito velho dentro de um corpo novo, ent\u00e3o, no fundo, sentia que eu estava a olhar lugares que j\u00e1 conhecia, como se os tivesse visitado em vidas passadas. Neste dia, prometi a mim mesma que iria estudar muito para saber um pouco de cada pa\u00eds que tinha acabado de aprender o nome, ainda que a escola p\u00fablica em que eu estava matriculada n\u00e3o ensinasse tanto aos alunos. Para divertir voc\u00ea, vou lhe contar uma curiosidade: naquele dia, descobri a exist\u00eancia do \u201cTogo\u201d, localizado na \u00c1frica; achei incr\u00edvel o fato de existir um pa\u00eds t\u00e3o pequeno em nome e em territ\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, em 2012, eu n\u00e3o fazia ideia do que estava acontecendo do outro lado do mundo. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabia que meninas da minha idade podiam estar sendo proibidas de irem \u00e0 escola; como hoje, mesmo em 2022, acontece com jovens afeg\u00e3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse, estudei em escolas p\u00fablicas por toda a minha vida; aqui, no Brasil, o ensino p\u00fablico salva e d\u00e1 oportunidades a muitas pessoas que n\u00e3o teriam a chance de estudar se tivessem de pagar. Mas, ainda assim, \u00e9 um ensino deficiente por diversos motivos. Muitos dos conte\u00fados ensinados nas escolas p\u00fablicas se repetem ao longo das s\u00e9ries, ou porque faltam professores para avan\u00e7ar no ensino, ou porque a maioria dos alunos n\u00e3o conseguiria acompanhar. \u00c9 uma realidade triste. Mas sei que n\u00e3o posso mais usar isso como muleta para justificar a minha falta de conhecimento sobre o mundo. Hoje, com 20 anos, tenho acesso \u00e0 Internet e a materiais que muitas pessoas n\u00e3o t\u00eam \u2014 e reconhe\u00e7o os privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando: cresci com o que pude saber sobre cada pa\u00eds do mundo. \u00c9 impressionante, mas acabei sabendo mais sobre os Estados Unidos do que sobre a Palestina, por exemplo. E, aqui, associo essa \u201cculpa\u201d tamb\u00e9m \u00e0 m\u00eddia tradicional, seja o r\u00e1dio, a televis\u00e3o, os portais de not\u00edcias, os jornais dos bairros em que morei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco se fala sobre a \u00c1sia e a \u00c1frica, em parte pela dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, claro, mas sabemos muito bem por quais outras raz\u00f5es isso acontece. Afinal, ouvimos falar, sim, de Portugal, da Alemanha e do Reino Unido, pa\u00edses europeus que tamb\u00e9m s\u00e3o distantes do Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os anos, por exemplo, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o ligarmos a televis\u00e3o na v\u00e9spera do ano novo, em 31 de dezembro e assistirmos \u00e0 cl\u00e1ssica entrada ao vivo de um rep\u00f3rter para falar que \u201cj\u00e1 \u00e9 Ano Novo na Austr\u00e1lia\u201d. A Austr\u00e1lia fica a exatos 15.569 quil\u00f4metros do Brasil. At\u00e9 do Iraque ficamos mais pr\u00f3ximos: s\u00e3o 11.374 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, posso dizer que ouvi, sim, coisas sobre a guerra na S\u00edria; ela n\u00e3o me \u00e9 desconhecida, apesar de eu n\u00e3o poder afirmar que sei tudo sobre ela; pelo menos, a m\u00eddia n\u00e3o falhou de todo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00edria. Pode ter falhado (e h\u00e1 quem possa me dizer isso melhor) no tipo de cobertura que escolheram fazer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No dia em que escrevo esta carta, completam-se 50 dias de guerra da R\u00fassia com a Ucr\u00e2nia. Solidarizo-me, especialmente, com as mulheres ucranianas que, al\u00e9m de terem sido desrespeitadas por um pol\u00edtico do meu pa\u00eds, devem ser as que mais sofrem em meio a tudo isso: m\u00e3es que tiveram de abandonar seus filhos, ou que os perderam, jovens que tiveram os sonhos interrompidos e meninas que n\u00e3o sabem se poder\u00e3o voltar \u00e0 escola. Sinto falta de ver, na m\u00eddia tradicional, um pouco mais sobre voc\u00eas, para al\u00e9m do n\u00famero de pessoas que o povo ucraniano perdeu em cada ataque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, no \u00faltimo ano da faculdade de Jornalismo, foi -me recomendada a leitura do livro \u201cQue eu seja a \u00faltima\u201d, da iraquiana Nadia Murad, publicado em 2019. Faltam palavras para descrever o choque que levei ao ler cada p\u00e1gina. Mas deixo aqui um dos trechos mais impactantes, em minha opini\u00e3o, em que Nadia resume as diversas viola\u00e7\u00f5es que o Daesh fez contra o povo yazidi a partir de 2014: Primeiro, tirou-nos das nossas casas e matou os nossos homens. Depois separou-nos das nossas m\u00e3es e irm\u00e3s. Onde quer que estiv\u00e9ssemos, lembrava-nos de que \u00e9ramos mera propriedade, exist\u00edamos apenas para ser tocadas e v\u00edtimas de abusos, como quando Abu Batat me apertou o peito como se o quisesse partir, ou quando Nafah espetou cigarros pelo meu corpo. Cada um destes abusos era um passo na destrui\u00e7\u00e3o das nossas almas (MURAD, 2019).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o posso dizer que imagino o quanto Nadia sofreu, pois estaria mentindo. Nunca sofri nenhum abuso desse tipo, nem de ordem sexual, nem de ordem religiosa. O mais pr\u00f3ximo que cheguei da viol\u00eancia foi quando sofri bullying, na escola, aos 11 anos de idade. Mas, de forma alguma, quero comparar aqui as hist\u00f3rias. O que quero \u00e9 refletir, junto a voc\u00ea que est\u00e1 lendo, como n\u00e3o fazemos ideia do que acontece com outra pessoa do outro lado do mundo, assim como n\u00e3o conhe\u00e7o a sua hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Dia do Jornalista deste ano, comemorado em 07 de abril aqui no Brasil, minha turma de jornalismo p\u00f4de receber Ahmad Alzoubi, um jornalista jordaniano que trabalha no Monitor do Oriente M\u00e9dio (MEMO) e, gentilmente, veio \u00e0 nossa faculdade \u2014 a convite de minha professora Cilene Victor \u2014 nos contar um pouco mais sobre a Palestina e o povo palestino. Em minha total ignor\u00e2ncia, n\u00e3o sabia que mais de 8,85 milh\u00f5es de palestinos vivem em ref\u00fagio ou ex\u00edlio, de acordo com o MEMO. Mas n\u00e3o sou de todo catastr\u00f3fica: ainda bem que, finalmente, voltei a ter a oportunidade de aprender, mesmo que s\u00f3 agora na universidade. Lamento o fato de um jornalista n\u00e3o saber o que acontece com voc\u00ea, sua fam\u00edlia, seu povo e seu pa\u00eds. E n\u00e3o tiro minha culpa, tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lamento pela falta de conhecimento que apresentamos em rela\u00e7\u00e3o ao mundo \u2014 aqui, refiro-me ao mundo mesmo, para al\u00e9m do Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O jornalista tem o costume de achar que sabe de tudo, que s\u00f3 porque conhece um profissional de cada \u00e1rea automaticamente conhece o mundo. Mentira. Quando li a hist\u00f3ria de Nadia Murad, percebi ainda mais que n\u00e3o sei de nada. Agora, eu sei um pouco mais do que antes; sei o que ela contou e teve a coragem de dizer; sei o que Ahmad Alzoubi contou a mim e aos meus colegas. Da minha parte, comprometo-me a conhecer mais sobre os yazidis e palestinos, sobre o Iraque, o Oriente M\u00e9dio e a \u00c1sia; sobre o mundo al\u00e9m do meu pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmar que a cobertura jornal\u00edstica na editoria internacional \u00e9 deficiente \u00e9 verdade; dizer que o jornalista n\u00e3o sabe sobre os pa\u00edses da regi\u00e3o do MENA (Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica) tamb\u00e9m \u00e9 verdade; mas n\u00e3o posso afirmar que o jornalista n\u00e3o tem a oportunidade de falar sobre voc\u00eas, porque ele tem; eu tenho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A oportunidade de falar sobre qualquer coisa nos \u00e9 dada quando adentramos a gradua\u00e7\u00e3o em jornalismo; quando, ao sermos questionados pelo professor em sala de aula, escolhemos uma determinada pauta e n\u00e3o outra; quando eu escolho escrever sobre algo que me \u00e9 confort\u00e1vel ou que me \u00e9 f\u00e1cil, porque j\u00e1 conhe\u00e7o e, ent\u00e3o, ser\u00e1 \u201cmelhor\u201d. Todos os dias, escolhemos sobre o que vamos falar desta vez. E, hoje, mesmo atrasada, escolho voc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>MURAD, Nadia. Que eu seja a \u00faltima: minha hist\u00f3ria de c\u00e1rcere e luta contra o estado isl\u00e2mico. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Guerra. S\u00e3o Paulo: Novo S\u00e9culo Editora, 2019<\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-7444","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/7444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7444"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=7444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}