{"id":7386,"date":"2022-12-09T16:18:42","date_gmt":"2022-12-09T19:18:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=7386"},"modified":"2022-12-26T09:55:36","modified_gmt":"2022-12-26T12:55:36","slug":"ontem-eu-morri-mas-hoje","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/ontem-eu-morri-mas-hoje\/","title":{"rendered":"Ont\u00e9m eu morri, mas hoje\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Autora: Karolline Vicente da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>Dif\u00edcil pensar no ano que passou e n\u00e3o sentir um calafrio. Dif\u00edcil refletir sobre os meses que pareceram todos iguais, com a diferen\u00e7a das esta\u00e7\u00f5es \u2013 dias um pouco nublados, outros mais ensolarados, quando n\u00e3o chuvosos. Mas, e quando a morada n\u00e3o tem espa\u00e7o suficiente para ver ou sentir o sol? Como ter\u00e1 sido o isolamento at\u00e9 do calor da nossa estrela mais brilhante? Cinza e solit\u00e1rio. At\u00e9 fazer apagar a pr\u00f3pria luz interna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00e7o de 2020. Ainda havia um aglomerado nos corredores da faculdade; o metr\u00f4 \u00e0s 22h estava lotado com universit\u00e1rios ansiosos para voltar para suas casas; professores preocupados com o rumo dos pr\u00f3ximos dias; fam\u00edlias sem saber com quem deixar seus filhos; pessoas estocando comida e \u00e1lcool em gel; era o in\u00edcio de uma longa jornada de mais de 365 dias de quarentena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A zombaria acontecia de um lado para o outro, andando paralela ao pr\u00f3prio v\u00edrus. Naquele mesmo dia, viram-se estudantes em bares, mas bem&#8230; At\u00e9 hoje n\u00f3s vemos. N\u00e3o estudantes, mas o perfil que restou deles, a parte que as aulas on-line n\u00e3o sugaram atrav\u00e9s da tela. A prop\u00f3sito, as reuni\u00f5es do Zoom tamb\u00e9m se tornaram outra esp\u00e9cie de sanguessuga. Se por um lado os encontros por videoconfer\u00eancia eram bons e minimamente reconfortantes, depois de tantas repeti\u00e7\u00f5es e sem nenhuma outra forma de contato, a satura\u00e7\u00e3o contaminou todos, tal como o sarampo, ou outro v\u00edrus, seja como for&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos foram os que conseguiram fugir da exaust\u00e3o emocional do home-office. Al\u00e9m das dores musculares e dos pensamentos acelerados (ou a falta deles), era preciso se adaptar ao novo formato de trabalho: o e-mail migrou para o WhatsApp, os caf\u00e9s da tarde com a equipe passaram a ser trazidos pelo motoboy do iFood (mas sem contato, o lanche fica na portaria) e a carga hor\u00e1ria&#8230; A qualquer hora, a qualquer momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A quarentena n\u00e3o somente inseriu o \u201chome-office\u201d no vocabul\u00e1rio do brasileiro, como tamb\u00e9m ressignificou a palavra \u201cprodutividade\u201d. Esta \u00faltima passou a ser odiada ferrenhamente por muitos, pois, n\u00e3o havendo mais disposi\u00e7\u00e3o corporal para produzir, a psique foi se sobrecarregando cada vez mais, at\u00e9 atingir seu limite. Os dias de isolamento social se tornaram iguais, repetindo-se como no filme \u201cAntes que eu v\u00e1\u201d \u2014 ou quem sabe, a melhor narrativa seria \u201cA Covid te d\u00e1 parab\u00e9ns\u201d \u2014 e as horas se tornaram infinitas. Em uma escala de trabalho, estudos, cuidado com a casa, dentre outras tarefas essenciais, os pensamentos acelerados se tornaram r\u00e1pidos demais para manter o equil\u00edbrio. Ent\u00e3o, deste modo, pessoas foram para os hospitais com suspeita de coronav\u00edrus e sa\u00edram de l\u00e1 medicadas com Fluoxetina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nem mesmo uma pandemia fez com que as pessoas quebrassem o tabu a respeito da sa\u00fade mental. Foram necess\u00e1rias muitas lives, encontros virtuais e entrevistas para que a import\u00e2ncia dessa tem\u00e1tica fosse melhor recebida. E, ainda assim, mesmo que o preconceito n\u00e3o fosse direcionado para o amigo que sofria com ataques de p\u00e2nico, o mesmo n\u00e3o era v\u00e1lido para si pr\u00f3prio. A empatia tinha fim no pr\u00f3prio umbigo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem nunca teve crises de ansiedade, fobia social e depress\u00e3o, a autoavalia\u00e7\u00e3o foi bastante complicada. Pior seria procurar ajuda em meio a uma crise econ\u00f4mica t\u00e3o forte. \u201cComo pagar a terapia se n\u00e3o h\u00e1 emprego?\u201d. N\u00e3o paga. Foi por isso que muitos psic\u00f3logos se voluntariaram e se dispuseram a cobrar valores mais acess\u00edveis para atender os pacientes. E n\u00e3o eram somente os jovens e adultos que necessitavam de suporte, os idosos e as crian\u00e7as tamb\u00e9m pediam socorro, por afeto, amor, divers\u00e3o e humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas crian\u00e7as perderam o brilho no olhar, permanecendo vidradas na tela do celular. Sem amiguinhos e com aten\u00e7\u00e3o fracionada dos pais, tornou-se entediante desenhar sozinho, e mais chato ainda seria brincar com os drag\u00f5es do universo intergal\u00e1ctico. A alfabetiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi ficando para tr\u00e1s, permanecendo apenas na lembran\u00e7a ou no choro da crian\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m choraram aqueles que j\u00e1 sofriam com transtornos ps\u00edquicos antes da pandemia. E aqui havia dois grupos: 1) os que tinham tido alta e retornaram ao m\u00e9dico com temor e 2) os que estavam em tratamento e se viram diante da necessidade de doses mais altas. Ambos estavam relutantes e com medo de tudo e de todos. A diferen\u00e7a maior foi que o grupo 1 sentiu f\u00faria pelas reca\u00eddas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para manter o bem-estar ps\u00edquico s\u00e3o necess\u00e1rias tr\u00eas pe\u00e7as fundamentais: alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, exerc\u00edcio f\u00edsico e pessoas. O medicamento \u00e9 sim necess\u00e1rio em muitos casos, mas, mesmo com o uso dele, os tr\u00eas pontos citados s\u00e3o extremamente importantes para o bom funcionamento de todo ser humano. No entanto, em meio ao isolamento social, sem poder sair de casa para praticar atividades f\u00edsicas ou encontrar com as pessoas mais queridas, e com toda a frustra\u00e7\u00e3o dessa realidade (e do home-office) intervindo na alimenta\u00e7\u00e3o, todo o autocuidado foi por \u00e1gua abaixo (n\u00e3o junto com o skin care).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o uma nova luta teve in\u00edcio, um novo tratamento, uma nova caixa de rem\u00e9dios, uma nova \u201crealidade\u201d. Os desafios dos transtornos psicol\u00f3gicos afetam cada indiv\u00edduo de uma maneira diferente, mas \u00e9 prov\u00e1vel que todos sintam o medo, o desamparo e a impot\u00eancia apertando o peito. O choro foi livre dentro de casa. Dessa vez n\u00e3o havia tantos amigos, abra\u00e7os, rol\u00eas ou qualquer meio de conforto ou fuga da dor. Ela precisava ser sentida, e de fato foi.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Passamos a sentir a dor da reca\u00edda, do desencontro, da separa\u00e7\u00e3o, do desamor, do desrespeito, da desumaniza\u00e7\u00e3o, da perda, do luto, do sil\u00eancio. Sentimos de perto a dor do vazio: frio e solit\u00e1rio. Talvez pela primeira vez, muitos precisaram olhar para dentro de si e refletir se j\u00e1 n\u00e3o estavam perdidos antes do v\u00edrus. Talvez a falta de ar fosse somente o descompasso das emo\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito reprimidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ouviram-se muitos gemidos de tristeza, l\u00e1grimas escorreram pelo rosto, a indigna\u00e7\u00e3o correu pelas veias, e os dias se repetiram como se fossem um DVD arranhado. A incerteza do amanh\u00e3 e a desist\u00eancia do hoje fizeram muitos quererem nadar no passado. \u201cH\u00e1 um ano eu estava no MC Donald\u2019s pr\u00f3ximo da faculdade, estava atrasada, pois tinha sa\u00eddo mais tarde do trabalho&#8230;\u201d; \u201cLembra aquele dia em que n\u00f3s fizemos um teatro para a sala toda? Realmente foi muito divertido, saudades da galera&#8230;\u201d; \u201cSe fosse no presencial, seria t\u00e3o diferente, porque as grava\u00e7\u00f5es no est\u00fadio dariam mais \u00e2nimo&#8230;\u201d; \u201cA netinha come\u00e7ou a andar nos primeiros meses de vida, ela era t\u00e3o pequena da \u00faltima vez que a vi&#8230;\u201d; \u201cA gente ia casar na primavera, mas n\u00e3o floresceu&#8230;\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E assim se passou o ano mais angustiante da vida de muitas pessoas. A alma desolada, a casa silenciosa (em algumas, com mais uma cama vazia), os sonhos mais fr\u00e1geis, o sorriso sem gra\u00e7a, os olhos sem luz e um corpo sem calor. Al\u00e9m de uma pandemia global, navegamos para uma epidemia de diagn\u00f3sticos de transtornos mentais e para o luto de uma vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um ano hesitante, tudo parece exatamente igual \u2013 ou pior. Se no in\u00edcio ainda havia como\u00e7\u00e3o e afeto, empatia e pot\u00eancia para ajudar o pr\u00f3ximo, hoje as pessoas perguntam: \u201cOnde est\u00e1 o meu pr\u00f3ximo?\u201d. Tantas pessoas morrendo, por dentro e por fora, n\u00e3o s\u00f3 pelo v\u00edrus ou por suic\u00eddio, mas pela falta de esperan\u00e7a e f\u00e9 de um mundo novo. Ser\u00e1 que quando a pandemia acabar estaremos no mesmo lugar? Se houver alguma mudan\u00e7a, ser\u00e1 que estaremos inteiros para apreci\u00e1- -la? Se n\u00e3o estivermos, onde estaremos? Qual nosso lugar amanh\u00e3? No mesmo lugar. As mesmas escolhas, a mesma perspectiva de vida, a mesma casa, e o amanh\u00e3 torna a se repetir continuamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dif\u00edcil pensar no ano que se passou e n\u00e3o sentir um calafrio. Um choro preso na garganta, uma nostalgia de um tempo bom, um sorriso frouxo como se aquele in\u00edcio de ano fosse um romance do passado&#8230; E foi. Poderia personificar 2020 como se fosse um antigo amor e lhe daria um abra\u00e7o bem apertado, como se fosse uma pessoa de verdade. Mas ao olhar seus olhos m\u00f3rbidos, ao surgir um suspiro na alma, diria que, apesar de toda a tristeza e desola\u00e7\u00e3o que estaria por vir, n\u00e3o valeria a pena viver no passado, por mais que o presente n\u00e3o fosse um presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">*Karolline Vicente da Silva aluna do curso de Jornalismo na FAPCOM.<\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-7386","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/7386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7386"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=7386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}