{"id":7377,"date":"2022-12-09T16:12:16","date_gmt":"2022-12-09T19:12:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=7377"},"modified":"2024-07-05T09:49:35","modified_gmt":"2024-07-05T12:49:35","slug":"conectividade-como-direito-tecnologia-a-servico-do-suas","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/conectividade-como-direito-tecnologia-a-servico-do-suas\/","title":{"rendered":"Conectividade como direito &#8211; Tecnologia a servi\u00e7o do SUAS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Autor: Carlos Eduardo Souza Aguiar<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que inquieta, de fato, n\u00e3o \u00e9 que o mundo se transforme num completo dom\u00ednio da t\u00e9cnica. Muito mais preocupante \u00e9 que o homem n\u00e3o est\u00e1 preparado para essa radical mudan\u00e7a do mundo. Muito mais preocupante \u00e9 que ainda n\u00e3o somos capazes de compreender adequadamente, por meio do pensamento meditativo, aquilo que est\u00e1 emergindo em nossa \u00e9poca.\u201d (Heidegger)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ato de acolher \u00e9 considerado na Pol\u00edtica de Assist\u00eancia Social de Prote\u00e7\u00e3o B\u00e1sica como um dos aspectos essenciais para a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos dos usu\u00e1rios do Sistema \u00danico da Assist\u00eancia Social \u2013 SUAS. No SCFV, a acolhida tem de ser um movimento cont\u00ednuo, que aconte\u00e7a n\u00e3o apenas no momento da chegada dos usu\u00e1rios ao espa\u00e7o em que \u00e9 executado o servi\u00e7o, mas em cada atividade e viv\u00eancia desenvolvida com eles.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia de Covid-19 que assola o Brasil e o mundo h\u00e1 mais de um ano acelera um processo em curso nas \u00faltimas d\u00e9cadas, que \u00e9 o da digitaliza\u00e7\u00e3o da sociedade. \u00c0s v\u00e9speras do colapso pand\u00eamico, todos os setores da vida social \u2013 da economia aos relacionamentos afetivos \u2013 j\u00e1 vinham sofrendo um impacto massivo e irrevers\u00edvel devido \u00e0 emerg\u00eancia das tecnologias digitais e em rede. No entanto, as medidas de isolamento social for\u00e7aram um deslocamento ainda mais forte para o ambiente das redes, em raz\u00e3o da necessidade de manter a circula\u00e7\u00e3o e as trocas em um n\u00edvel compat\u00edvel com a pr\u00f3pria exist\u00eancia da sociedade. Os milhares de estudantes e professores ao redor do globo que, de uma hora para outra, tiveram de adaptar suas metodologias de ensino e aprendizagem para o contexto das media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas s\u00e3o testemunhas dessas mudan\u00e7as dr\u00e1sticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe vida social sem circula\u00e7\u00e3o de pessoas, de ideias, de solidariedade, de mercadorias. A sociedade funciona \u00e0 medida que as trocas entre seus diferentes atores acontecem, n\u00e3o s\u00f3 trocas econ\u00f4micas, mas de conhecimento, de informa\u00e7\u00f5es e, por que n\u00e3o, de afetos e acolhimento. Logo, os imperativos da pandemia obrigaram diferentes atores, entusiastas ou n\u00e3o das media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, a aprofundarem sua conectividade no ambiente das redes, situa\u00e7\u00e3o que desvelou com clareza uma das mais contundentes desigualdades do mundo contempor\u00e2neo: a desigualdade digital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o seria diferente com as atividades ligadas \u00e0 Assist\u00eancia Social. Diferentes servi\u00e7os tiveram de rever protocolos e procedimentos e a atua\u00e7\u00e3o remota \u2014 que sempre foi alvo de forte resist\u00eancia devido ao imperativo do acolhimento e da escuta atrelados \u00e0 presencialidade \u2014 passou a ser, em muitos casos, o \u00fanico recurso para manuten\u00e7\u00e3o dos atendimentos, na maioria dos casos realizada de forma improvisada, por ferramentas massificadas, como o WhatsApp.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A tecnologia se insere de forma contundente no \u00e2mbito da Assist\u00eancia Social e alguns questionamentos emergem como fundamentais para profissionais e pesquisadores da \u00e1rea, como o modo de encarar essas tecnologias \u2014 se enquanto meros instrumentos ou como verdadeiros ambientes que os profissionais devem ocupar \u2014 e, sobretudo, o questionamento acerca da necessidade de garantir o direito de conectividade a toda popula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo para uma medita\u00e7\u00e3o sobre a t\u00e9cnica \u00e9 abandonar a perspectiva instrumental e encarar as tecnologias como parte integrante da condi\u00e7\u00e3o humana, elementos estruturantes do mundo que habitamos. Abandonar essa perspectiva nos permite sair de uma cilada moralista que ora encara essas tecnologias como boas em si, ora como ruins em si, o que inevitavelmente contamina o debate sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a Assist\u00eancia Social e o mundo da t\u00e9cnica. Boa parte da discuss\u00e3o gira em torno desse dilema porque polariza as opini\u00f5es entre aqueles que entendem a tecnologia como ferramenta que traz o progresso para a atividade e aqueles que entendem que o excesso de media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, como os atendimentos remotos, traz preju\u00edzos substantivos para a atividade, por supostamente corromper um de seus princ\u00edpios fundamentais, que \u00e9 o contato presencial. Igualmente problem\u00e1tica \u00e9 a tese da suposta neutralidade das tecnologias, centrada na defesa de que elas n\u00e3o seriam boas ou ruins em si, mas qualificadas segundo o uso que \u00e9 feito delas. Ou seja, as tecnologias no \u00e2mbito da Assist\u00eancia Social poderiam at\u00e9 ser algo positivo se usadas com prop\u00f3sitos nobres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O problem\u00e1tico em todas essas posi\u00e7\u00f5es \u00e9 que elas partem do mesmo pressuposto de que as tecnologias s\u00e3o meros instrumentos, que ora corrompem, ora potencializam o trabalho da assist\u00eancia social, ou mesmo as consideram como instrumentos neutros cujo papel seria decidido por seus diferentes usu\u00e1rios. Martin Heidegger, eminente pensador da t\u00e9cnica, nos alerta que a concep\u00e7\u00e3o instrumental, apesar de correta, n\u00e3o revela a verdade sobre a t\u00e9cnica. Eis a urg\u00eancia de se questionar sobre a t\u00e9cnica, pois, ao contr\u00e1rio, estar\u00edamos sempre limitados e sem liberdade diante dela, presos na afirma\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o apaixonada ou entregues \u00e0 fal\u00e1cia da neutralidade. No limite, as tecnologias n\u00e3o s\u00e3o apenas meros instrumentos, mas determinam a forma como habitamos o mundo e nos relacionamos com os outros seres humanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um simples conjunto de objetos e pr\u00e1ticas, a t\u00e9cnica deve ser pensada como um fator relevante na nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade, isto \u00e9, como aquilo que interfere e tem preced\u00eancia nas diferentes varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do modo de aparecimento, ou de revela\u00e7\u00e3o, da realidade. Logo, a nossa condi\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo \u00e9 marcada pelo advento das tecnologias digitais e em rede. Tal condi\u00e7\u00e3o deve ser refletida seriamente por toda atividade profissional, inclusive aquelas ligadas aos SUAS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A informatiza\u00e7\u00e3o e as novas tecnologias s\u00e3o um risco e uma oportunidade para o servi\u00e7o social. Um risco, porque podem contribuir para romper a rela\u00e7\u00e3o entre profissionais e usu\u00e1rios, comprometendo a cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos e o exerc\u00edcio da escuta. Uma oportunidade, porque podem, ao contr\u00e1rio, contribuir para uma maior autonomia dos cidad\u00e3os e impulsionar uma nova reflex\u00e3o sobre os of\u00edcios e as fun\u00e7\u00f5es, ajudando na estrutura\u00e7\u00e3o de um ambiente profissional \u2014 possivelmente ampliado \u2014 e promovendo a forma\u00e7\u00e3o, o interc\u00e2mbio de pr\u00e1ticas, a comunica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos quadros estritamente institucionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente vista sob a \u00f3tica da instrumentalidade, na esteira da informatiza\u00e7\u00e3o de processos a partir dos anos 1990, a condi\u00e7\u00e3o digital da exist\u00eancia contempor\u00e2nea, com a pandemia e o imperativo do distanciamento social, se desvela de outro modo para os profissionais e gestores. A continuidade de v\u00e1rios servi\u00e7os foi parcialmente poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s tecnologias, n\u00e3o por existirem arquiteturas digitais planejadas para essa emerg\u00eancia, mas porque boa parte da sociedade brasileira j\u00e1 habita esse novo ambiente, o que permitiu uma adapta\u00e7\u00e3o emergencial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essa situa\u00e7\u00e3o desvelou um outro aspecto, reflexo da desigualdade econ\u00f4mica, que \u00e9 a desigualdade digital. Estudantes do Brasil inteiro, para dar o exemplo mais marcante, sem acesso \u00e0s redes e computadores, estiveram exclu\u00eddos do ensino remoto emergencial durante o per\u00edodo de restri\u00e7\u00e3o na pandemia. Exclus\u00e3o tecnol\u00f3gica que vai aprofundar as desigualdades sociais. De fato, uma parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o, justamente a mais fragilizada e que demanda os servi\u00e7os do SUAS, est\u00e1 exclu\u00edda do mundo digital. Al\u00e9m dessa quest\u00e3o educacional, tarefas simples, como solicitar o aux\u00edlio emergencial via aplicativo da Caixa, representaram um obst\u00e1culo enorme para muitas pessoas que n\u00e3o tinham acesso \u00e0s redes. O demandante precisaria de um celular, de um computador ou da ajuda de um terceiro para pedir o benef\u00edcio. O resultado foi a forma\u00e7\u00e3o de filas gigantescas nas ag\u00eancias da Caixa ou mesmo nos Centro de Refer\u00eancia da Assist\u00eancia Social (CRAS) para algum tipo de aux\u00edlio. Lamentavelmente, essa barreira digital ocasionou o n\u00e3o cadastramento de pessoas que precisavam muito, como aqueles em situa\u00e7\u00e3o de rua que, muitas vezes, nem no Cad\u00danico estavam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A invisibilidade social \u00e9, nesses casos, potencializa &#8211; da pela exclus\u00e3o digital. Outro exemplo marcante foi o programa de gratuidade nos restaurantes Bom Prato do governo estadual. Essa gratuidade era garantida via cadastramento on-line e apresenta\u00e7\u00e3o de um cart\u00e3o com QR Code pelos benefici\u00e1rios, o que, evidentemente, representava um grande obst\u00e1culo para efetiva\u00e7\u00e3o desse direito. Sem mencionar todos os servi\u00e7os prestados no \u00e2mbito do SUAS que puderam continuar de forma remota pelas media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, mas dos quais ficaram de fora aqueles que n\u00e3o tinham recursos digitais, permanecendo expostos e desassistidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vivemos tempos normais. O que a pandemia desvelou de modo claro \u00e9 que vivemos definitivamente no mundo da t\u00e9cnica e das redes, sendo este um caminho sem volta. Nesta situa\u00e7\u00e3o extrema, foram as tecnologias que permitiram a continuidade da vida social. Logo, a garantia da conectividade constitui direito b\u00e1sico de cidadania no mundo contempor\u00e2neo e a n\u00e3o concretiza\u00e7\u00e3o desse direito agrava as desigualdades e potencializa as invisibilidades sociais. A clareza de que a conectividade \u00e9 um direito b\u00e1sico s\u00f3 \u00e9 atingida, no nosso entender, quando se abandona a perspectiva instrumental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A urg\u00eancia do debate se intensifica quando deixamos de enxergar as tecnologias como simples ferramentas, que podemos usar ou n\u00e3o, que prejudicam ou beneficiam, e passamos a enxerg\u00e1-las como constitutivas do ambiente contempor\u00e2neo que habitamos, entendendo que ao se negar o acesso a elas, nega-se tamb\u00e9m a cidadania. Desvela-se, assim, a necessidade e a urg\u00eancia de um investimento de todos os atores do servi\u00e7o social em tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o. Sobretudo, desvela-se a necessidade de compreender a conectividade como um direito a ser garantido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e cuja efetiva\u00e7\u00e3o melhora as condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas vulner\u00e1veis, pois resgata a capacidade de a\u00e7\u00e3o e permite a participa\u00e7\u00e3o plena da vida em sociedade. Em suma: o caminho para efetiva\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 plena conviv\u00eancia passa pela democratiza\u00e7\u00e3o das tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u00b9 Doutor em Sociologia pela Universit\u00e9 Sorbonne Paris Cit\u00e9, mestre em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela USP, especialista em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela PUC-SP e graduado em Comunica\u00e7\u00e3o Social, Filosofia e Ci\u00eancias Sociais pela USP. \u00c9 professor dos cursos de Comunica\u00e7\u00e3o Social e Filosofia e coordenador do N\u00facleo de Pesquisa e Extens\u00e3o da Faculdade PAULUS de Tecnologia e Comunica\u00e7\u00e3o (Fapcom). \u00b2 HEIDEGGER, Martin. Ensaios e confer\u00eancias. Petr\u00f3polis: Vozes, 2006.<\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-7377","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/7377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7377"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=7377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}