{"id":7337,"date":"2022-12-09T11:13:39","date_gmt":"2022-12-09T14:13:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=7337"},"modified":"2022-12-26T11:14:19","modified_gmt":"2022-12-26T14:14:19","slug":"corpoterritorialidade-o-encontro-das-margens","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/corpoterritorialidade-o-encontro-das-margens\/","title":{"rendered":"Corpoterritorialidade &#8211; O encontro das margens"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Autores: Maur\u00edcio Rossini dos Santos, Mira Lopes<\/p>\n\n\n\n<p>No dicion\u00e1rio, \u201ccomunidade\u201d se refere \u00e0 no\u00e7\u00e3o de algo comum a diversos indiv\u00edduos. Dada a dimens\u00e3o territorial de nosso pa\u00eds, sua diversidade e multiplicidade, o que seria comum a todos? Qual ou quais elementos poderiam representar o Brasil do ponto de vista do sentido imediato que a palavra \u201ccomunidade\u201d desperta?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do dicion\u00e1rio, no imagin\u00e1rio brasileiro, comunidade \u00e9 a periferia, o sub\u00farbio, a \u201cquebrada\u201d, a margem \u2013 nem sempre nas margens da cidade, mas sempre marginalizada. Diante disso, a forma\u00e7\u00e3o foi contornada por essa ideia da comunidade como periferia e ocupou-se em dialogar com os participantes sobre as alternativas para o cen\u00e1rio atual, sempre considerando a pot\u00eancia em lugar da escassez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para retratar as periferias do Brasil, se fez necess\u00e1rio que fal\u00e1ssemos sobre o lugar que o pa\u00eds ocupa no mapa, geogr\u00e1fica e politicamente, apresentando aspectos econ\u00f4micos e sociais que constituem o Brasil hoje e apontando como esses elementos globais, entrela\u00e7ados com a realidade interna, possibilitaram a gera\u00e7\u00e3o dos lugares os quais denominamos \u201ccomunidades\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um elemento hist\u00f3rico indissoci\u00e1vel do surgimento das comunidades foi o processo de escraviza\u00e7\u00e3o de povos trazidos da \u00c1frica para o Brasil e da popula\u00e7\u00e3o nativa, os ind\u00edgenas. O uso da m\u00e3o de obra cativa, alicerce de todas as antigas civiliza\u00e7\u00f5es (GOMES, 2019, p. 64), toma novo contorno com o surgimento da ideologia racista pela qual a condi\u00e7\u00e3o de escravo passa a ser diretamente vinculada ao tom da pele. Assim, a pessoa n\u00e3o branca \u00e9 pertencente a uma sub-ra\u00e7a que, apenas em cativeiro e sob a tutela dos brancos, poderia ser considerada, por ventura, humana de fato (GOMES, 2019, p. 73).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 da tardia e mal entendida \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d dos escravos, permeada por outros fatores correlatos, que as comunidades do Brasil s\u00e3o herdeiras. Salvaguardadas as peculiaridades de cada regi\u00e3o do pa\u00eds e das comunidades que as integram, todos somos, sem exce\u00e7\u00e3o, frutos do processo de coloniza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, da escravid\u00e3o perpetrada pelos europeus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No curso da hist\u00f3ria, outros fatores foram sedimentando essa heran\u00e7a nefasta: o pr\u00f3prio sistema capitalista, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o do trabalho e demais pol\u00edticas que sustentaram e ainda sustentam a manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dessa macrovis\u00e3o que partimos para, em sequ\u00eancia, abordarmos uma perspectiva sobre o pr\u00f3prio corpo \u2013 aquele que reconhe\u00e7o para al\u00e9m da dimens\u00e3o org\u00e2nica \u2013 e sua rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o. Seguimos ent\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua e colaborativa entre esses corpos na constru\u00e7\u00e3o de alternativas locais para o enfrentamento das desigualdades sempre presentes e agravadas neste momento de pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CORPO-TERRIT\u00d3RIO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seria um corpo-lugar? O conceito de territ\u00f3rio, amplamente discutido e alvo de fortes tentativas de redefini\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas, trata-se \u2014 em uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o \u2014, fundamentalmente, de \u201cum espa\u00e7o definido e delimitado por e a partir de rela\u00e7\u00f5es de poder\u201d (SOUZA, 1995, p. 78). Naturalmente, tal defini\u00e7\u00e3o deve levar em conta o debate sobre o conceito de poder, o que n\u00e3o nos cabe realizar neste trabalho. Mas \u00e9 fato que nossas discuss\u00f5es consideram as rela\u00e7\u00f5es de poder que formam os mais diversos corpos, tornando o conceito de lugar mais adequado a partir da \u00f3tica adotada na forma\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O significado de lugar, apesar de sua acep\u00e7\u00e3o cotidiana e de muitas vezes se fundir ao significado de espa\u00e7o, \u00e9 dotado de carga simb\u00f3lica e, \u201c\u00e0 medida em que o conhecemos melhor e o dotamos de valor\u201d, o espa\u00e7o vai se tornando lugar, sendo este menos abstrato que aquele (TUAN, 2013, p. 14). Sendo assim, o conceito de lugar se assemelha ao conceito de territ\u00f3rio, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a dimens\u00e3o do poder que se apresenta em primeiro plano, e sim a dimens\u00e3o cultural-simb\u00f3lica, e a partir dela as identidades, a intersubjetividade e as trocas simb\u00f3licas v\u00e3o construindo as imagens e sentidos de lugar \u2014 ou dos lugares \u2014 enquanto espa\u00e7o vivido e percebido (SOUZA, 2016).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como nos diz Lefebvre (1986[1974], p. 199), \u201ccada corpo vivo \u00e9 um espa\u00e7o e tem seu espa\u00e7o: ele produz no espa\u00e7o e produz o espa\u00e7o\u201d. Da mesma forma, o corpo tamb\u00e9m \u00e9 produzido pelo espa\u00e7o. Ailton Krenak (2020) adiciona \u00e0 discuss\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Pertencer a um lugar \u00e9 fazer parte dele, \u00e9 ser a extens\u00e3o da paisagem, do rio, da montanha. \u00c9 ter seus elementos e cultura, hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o nesse lugar. Ou seja, em vez de voc\u00ea imprimir um sentido ao lugar, o lugar imprime um sentido \u00e0 sua exist\u00eancia.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, da mesma forma que s\u00f3 se compreende o ser ao entender sua territorialidade, s\u00f3 se compreende o territ\u00f3rio ao se entender os corpos ou a partir da conjuga\u00e7\u00e3o entre corpo individual e corpo social\u201d (HAESBAERT, 2020, p. 86). Podemos entender, portanto, o corpo \u2014 ou a corporeidade, essa \u201clinguagem estrutural que transpassa o corpo\u201d (LIND\u00d3N, 2012, p. 703) \u2014 como um primeiro lugar, o primeiro espa\u00e7o de reconhecimento do sujeito, onde se encontra toda a carga subjetiva que o torna um no todo e um com o todo e que \u00e9 moldado atrav\u00e9s dos conflitos internos e externos. O corpo, ent\u00e3o, \u00e9 um lugar que se forma, deforma e transforma a partir das experi\u00eancias socioespaciais. Portanto, como nos alerta Nogueira (2014, p. 40), \u00e9 momento de estabelecermos rela\u00e7\u00f5es com as pessoas que habitam os lugares para melhor compreend\u00ea-las ou corremos o risco de pensar a sociedade apartada do lugar \u2014 e dos corpos-lugar \u2014, &#8220;a-especializada&#8221;, um lugar sem pessoas, onde as rela\u00e7\u00f5es entre os lugares s\u00e3o apenas t\u00e9cnicas. N\u00e3o h\u00e1 forma de compreender e transformar o espa\u00e7o que n\u00e3o seja atrav\u00e9s dos corpos que o habitam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAFEZIN<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio, a hist\u00f3ria em quadrinhos \u201cHer\u00f3is da Conviv\u00eancia\u201d, componente do Kit PDEC 2020 \u2013 ideia surgida magistralmente a partir dos percursos elaborados e desenvolvidos pela equipe do Servi\u00e7o de Conviv\u00eancia e Fortalecimento de V\u00ednculo \u201cDe Olho no Futuro\u201d \u2013 serviu de mote para a condu\u00e7\u00e3o da conversa. Desse modo, ilustra\u00e7\u00f5es diversas e a identifica\u00e7\u00e3o de \u201cher\u00f3is\u201d locais foram parte significativa do processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o percurso, surgiu a proposta de criarmos tirinhas ao final de cada encontro. Para isso, foi criada uma personagem com a fun\u00e7\u00e3o de representar partes t\u00e3o distantes e diversas: o Cafezin, idealizado e criado pelo grupo em geral, sob a coordena\u00e7\u00e3o dos educadores da PAULUS. A personagem \u00e9 um copo estilo americano, servido de caf\u00e9 at\u00e9 a metade, que lan\u00e7a no ar, por sua fuma\u00e7a, as frases, poesias, ideias e trocas estabelecidas pelos participantes do processo formativo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa personagem tem a pretens\u00e3o de ser a express\u00e3o das alternativas criadas pelos profissionais dos SCFV na atual conjuntura. Revela tamb\u00e9m as sa\u00eddas encontradas pelas lideran\u00e7as locais que n\u00e3o necessariamente t\u00eam atua\u00e7\u00e3o em equipamentos da rede socioassistencial ou qualquer outra rede garantidora de direitos, ao menos n\u00e3o de modo formal. Tais lideran\u00e7as est\u00e3o no enredo das iniciativas populares coletivas, de arte, cultura e educa\u00e7\u00e3o, redes colaborativas, \u00e0s vezes vinculadas a grupos religiosos \u2013 de todas as cren\u00e7as \u2013, associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias ou iniciativas espont\u00e2neas de moradores do territ\u00f3rio. S\u00e3o essas redes, articuladas ou n\u00e3o entre si, que v\u00eam proporcionando \u00e0s comunidades o aporte necess\u00e1rio para a sustenta\u00e7\u00e3o da vida com dignidade. Essas iniciativas, vinculadas a medidas emergenciais adotadas pelo governo federal, t\u00eam garantido, por ora, que se evite o t\u00e3o temido colapso social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A personagem se ocupou em ouvir as vozes daqueles que abriam o microfone ou escreviam no chat. Ela escutava, dialogava, sintetizava, ampliava e depois dizia: \u201cCafezin ouviu de Fernanda Rieta a seguinte frase: &#8216;ler a comunidade \u00e9 ouvir as pessoas\u2019\u201d. A cada gole de palavra, Cafezin ganhava corpo e territ\u00f3rio, lugar e espa\u00e7o. Foi se deixando habitar que ele se tornou quem \u00e9. Foi com cada gole que o v\u00eddeo e o fanzine foram elaborados como entrega resultante dessa caminhada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tema: Comunidade\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Participantes: 93\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Munic\u00edpios: 32&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas: 66&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Encontros virtuais entre agosto e novembro de 2020: 10&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Principais resultados: fanzine e v\u00eddeo<\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-7337","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/7337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7337"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=7337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}