{"id":7328,"date":"2022-12-09T11:07:22","date_gmt":"2022-12-09T14:07:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=7328"},"modified":"2022-12-26T11:57:36","modified_gmt":"2022-12-26T14:57:36","slug":"os-dias-eram-assim","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/os-dias-eram-assim\/","title":{"rendered":"Os dias eram assim"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Autora: Lilian Gibin<\/p>\n\n\n\n<p>Lugar silencioso, sons apenas de passarinhos, gatos, cachorros soltos na rua&#8230; Eu observava tudo e pensava: \u201cN\u00e3o acontece nada neste lugar de dias longos e desertos\u201d. Mas tudo acontecia na minha imagina\u00e7\u00e3o!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu pai sa\u00eda para trabalhar e meus irm\u00e3os, quando voltavam da escola, brincavam na rua de queimada, pega-pega e futebol. Isso era coisa de menino, mas minha irm\u00e3 quebrava as regras e dizia: \u201cEu tamb\u00e9m posso jogar!\u201d, e passava a tarde em meio \u00e0 molecada. Eu e minha m\u00e3e fic\u00e1vamos em casa, ela sempre ocupada com os afazeres do lar enquanto eu explorava o quintal criando meu mundo: conversar com as formigas, subir no p\u00e9 de jabuticaba&#8230; L\u00e1 sim era minha verdadeira casa, com galho-quarto, galho-sala, galho-cozinha e galho-banheiro. \u00c0s vezes subia t\u00e3o alto que conseguia olhar por cima da copa da \u00e1rvore. Quando se \u00e9 crian\u00e7a, tudo parece ser gigante&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes minha m\u00e3e me autorizava a ir at\u00e9 a esquina, no bar do Sr. Rubens, buscar um doce, enquanto ela me esperava na varanda, sentada, fazendo frivolit\u00e9, uma esp\u00e9cie de renda feita em linha com uma agulha chamada navete. Nomes estranhos! Mas o importante \u00e9 que no auge dos meus 3 anos de idade eu podia sair do port\u00e3o para fora. Minha m\u00e3e gritava: \u201cCuidado para atravessar a rua!\u201d, e eu olhava para os dois lados e pensava: \u201cSer\u00e1 que tenho que esperar aparecer um cavalo, uma charrete ou um carro \u2013 o que era mais dif\u00edcil aparecer por l\u00e1 \u2013 para depois poder atravessar?\u201d. Alguns segundos eram suficientes para saber que podia atravessar em seguran\u00e7a. N\u00e3o passava ningu\u00e9m na rua. Chegando ao bar, o que mais chamava minha aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram os doces (chupeta vermelha de a\u00e7\u00facar queimado, maria-mole, casquinha com maria-mole que tinha um anel grudado, doce de leite, doce de cora\u00e7\u00e3o de ab\u00f3bora&#8230;), mas sim o que ficava em cima do balc\u00e3o e eu s\u00f3 de longe conseguia enxergar: eram os ovos de galinha coloridos. Azul, amarelo, rosa, verde&#8230; Pensava que no s\u00edtio da minha nona s\u00f3 tinha galinha que botava ovos brancos&#8230; S\u00f3 depois de muito tempo fui conhecer o corante anilina, que se colocava na \u00e1gua para cozinhar os ovos e deixar sua casca colorida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os 5 minutos eram o suficiente para essa jornada, e voltava correndo com medo do homem do saco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas figuras muito tradicionais da zona rural apareciam uma a uma, de tempo em tempo: homem na charrete, homem a cavalo, homem no alto-falante vendendo frutas, homem tirando mato da cal\u00e7ada, homem com gaita vendendo sorvete e um homem que tinha matado a mulher. Diziam: \u201cFoi crime passional!\u201d. Matar eu sabia o que era, mas n\u00e3o sabia o que era \u201cpassional\u201d. Devia ser coisa boa se ele estava l\u00e1 vivendo tranquilamente sua vida, ent\u00e3o achava que estava tudo certo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que quero contar mesmo \u00e9 que, em todos os finais de semana do m\u00eas de agosto, a pequena cidade de Joaquim Eg\u00eddio (hoje distrito de Campinas) fica diferente. Era o momento t\u00e3o aguardado, a Festa do Padroeiro, a Festa de S\u00e3o Joaquim. Ah, que lindeza! A rua ficava movimentada, tinha gente de toda parte, quer &#8211; messe, pau-de-sebo, muitas bandeirinhas e as atra\u00e7\u00f5es especiais, como o desfile de cavalos, com todo destaque e aten\u00e7\u00e3o para a prociss\u00e3o de andor com o Santo Padroeiro, saindo pelas tr\u00eas ruas e aben\u00e7oando nossa vila! Muita m\u00fasica e violeiros ajudavam a festejar o tempo mais aguardado. Nesses dias, meu pai ajudava na organiza\u00e7\u00e3o da festa. Acho que tenho a quem puxar, sou festeira, e uma festa com tradi\u00e7\u00f5es populares ainda toca profundamente meu cora\u00e7\u00e3o. Fiquei at\u00e9 meus 6 anos morando naquela rua da igreja, local onde tudo acontecia uma vez ao ano. Quando mudamos para Campinas, a adapta\u00e7\u00e3o foi longa; tudo inspirava cuidado e ao mesmo tempo novas descobertas. Logo me chamou aten\u00e7\u00e3o o bairro Taquaral, com sua lagoa onde as pessoas caminham, se encontram, fazem piqueniques.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca pensei que em meio a uma pandemia o tema \u201cRegionalidade\u201d fosse despertar em mim as melhores mem\u00f3rias. Conheci gente de v\u00e1rias regi\u00f5es, o que provavelmente n\u00e3o seria poss\u00edvel se os encontros fossem presenciais. Sentimos uma energia boa entre n\u00f3s e o mesmo objetivo de partilhar conhecimentos, experi\u00eancias e mudar o mundo, ou pelo menos o nosso mundo, come\u00e7ando pelo respeito a todos que faziam parte daquele encontro virtual. Houve algumas interfer\u00eancias pela qualidade da internet, mas nada que tenha impedido as trocas de conhecimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os encontros semanais durante esses tr\u00eas meses foram ricos em reflex\u00f5es. Deparamo-nos com figuras importantes e estudos relevantes, que apontam as prov\u00e1veis causas das desigualdades sociais, respons\u00e1veis por outro tipo de distanciamento social em nosso pa\u00eds. Como conviver com tanta desigualdade? Quais caminhos precisamos percorrer para fazer a nossa parte como educadores sociais? Acima de tudo, o que podemos fazer como cidad\u00e3os da nossa terra?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendemos uns com os outros em momentos encantadores: janelas abertas para lugares nos quais n\u00e3o existia a pandemia, pelo menos por algumas horas. Rafael, com sua rabeca, tocou e nos tocou com seu sotaque do Nordeste e falou sobre seu conterr\u00e2neo Fabi\u00e3o das Queimadas, poeta, escravo que comprou a pr\u00f3pria alforria, tamb\u00e9m tocador de rabeca e cantador brasileiro. S\u00e3o Jo\u00e3o da Mata, cidade da Mari, no melhor estilo interiorano de Minas Gerais, um lugar que preserva as tradi\u00e7\u00f5es da Folia de Reis e das Congadas, um para\u00edso cultural. \u00cdcaro, jovem ga\u00facho, enriqueceu nossos encontros com as tradi\u00e7\u00f5es de m\u00fasicas, dan\u00e7as e vestu\u00e1rios ainda muito presentes na forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes de sua cidade, centro de tradi\u00e7\u00f5es que fortalecem a vida naquela regi\u00e3o. E a Taiada&#8230; Ah, essa deu o que falar! \u00c9 um doce que Rosana e Vivian nos contaram ser tradicional em Ca\u00e7apava, na regi\u00e3o do Vale do Para\u00edba, em S\u00e3o Paulo. At\u00e9 a receita mostraram e ficaram de enviar pelo correio para saborearmos essa del\u00edcia feita de melado de cana-de-a\u00e7\u00facar, farinha de mandioca e gengibre. Estou esperando chegar aqui em casa e depois conto o que achei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cConheci\u201d o bairro de S\u00e3o Mateus em S\u00e3o Paulo, um lugar que mostra todo contraste da desigualdade social, sob o olhar atento e sens\u00edvel da Eliane. Algumas a\u00e7\u00f5es concretas realizadas ali valorizam a vida de crian\u00e7as e jovens daquele lugar e nos fazem pensar como temos in\u00fameros bairros como esse espalhados por todo o Brasil, uma realidade que se perpetua a cada vez que uma crian\u00e7a nasce e lhe \u00e9 negado o direito a moradia, alimenta\u00e7\u00e3o adequada, sa\u00fade, escola, lazer e cultura para que ela possa se descobrir e descobrir novos caminhos para sua vida. Daqui de Campinas\/SP apresentei o Movimento das Minas, um coletivo de mulheres com o objetivo de informar e conscientizar a popula\u00e7\u00e3o sobre a quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher. Eu escolhi esse tema em homenagem a Thais, que foi menina primavera, ou seja, uma menina atendida pelo Grupo Primavera, institui\u00e7\u00e3o na qual atuo como coordenadora de projetos voltados ao p\u00fablico jovem. Em 2019, aos 21 anos, ela acabou sendo v\u00edtima de feminic\u00eddio, pois o namorado n\u00e3o aceitava o fim do relacionamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio da mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade do Jardim S\u00e3o Marcos, o coletivo Movimento das Minas surgiu para realizar um trabalho de apoio \u00e0s mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia, divulgando todos os meios legais e pol\u00edticas p\u00fablicas que protegem suas vidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora j\u00e1 posso dizer que o ano da pandemia de Covid-19 foi um ano de muitas surpresas ruins, perdas, informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o. Mas ele tamb\u00e9m trouxe novas viv\u00eancias e possibilidades. Ficamos conectados e percebemos como o acesso \u00e0 internet n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o democr\u00e1tico assim, afinal, muitos lugares ainda n\u00e3o possuem saneamento b\u00e1sico, rede de esgoto e, muito menos, uma rede de internet que permita essa conex\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo deixar\u00e1 saudades, mas tamb\u00e9m muitos ensinamentos. Foi bom demais!<\/p>\n\n\n\n<p>Tema: Regionalidade Participantes: 64&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Munic\u00edpios: 18&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas: 37&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Encontros virtuais entre agosto e novembro de 2020: 10&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Principal resultado: apresenta\u00e7\u00e3o durante a transmiss\u00e3o ao vivo.<\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-7328","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/7328","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7328"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=7328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}