{"id":10429,"date":"2025-08-14T17:23:51","date_gmt":"2025-08-14T20:23:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/?post_type=conteudos&#038;p=10429"},"modified":"2025-08-14T17:28:09","modified_gmt":"2025-08-14T20:28:09","slug":"o-trabalho-no-acolhimento-institucional-reflexoes-sobre-a-pratica-profissional-e-a-garantia-de-direitos","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/conteudos\/o-trabalho-no-acolhimento-institucional-reflexoes-sobre-a-pratica-profissional-e-a-garantia-de-direitos\/","title":{"rendered":"O trabalho no acolhimento institucional: Reflex\u00f5es sobre a pr\u00e1tica profissional e a garantia de direitos"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Magda Pereira Duarte<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1000artigo-magda180825.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"386\" src=\"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1000artigo-magda180825.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10430\" srcset=\"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1000artigo-magda180825.jpg 1000w, https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1000artigo-magda180825-300x116.jpg 300w, https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1000artigo-magda180825-768x296.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Esta breve reflex\u00e3o \u00e9 fruto de momentos de troca e discuss\u00f5es durante a forma\u00e7\u00e3o intitulada Acolhimento Institucional, Desafios e Possibilidades, realizada no m\u00eas de fevereiro de 2025, por meio do Programa de Assessoramento da PAULUS. Durante os encontros, al\u00e9m de tem\u00e1ticas concernentes a legisla\u00e7\u00e3o &#8211; Pol\u00edtica Nacional de Assist\u00eancia Social (PNAS), o Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social (SUAS) e o Sistema de Garantia de Direitos (SGD), in\u00fameros conte\u00fados acerca do trabalho dos profissionais, a aus\u00eancia de avan\u00e7os neste sentido e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho neste servi\u00e7o tamb\u00e9m foram mencionados, complicadores que tensionam o cotidiano de trabalho desses profissionais. \u00c9 fato que h\u00e1 marcos legais que preconizam a prote\u00e7\u00e3o integral de crian\u00e7as e adolescentes em medida protetiva de acolhimento, com avan\u00e7os significativos neste sentido, contudo, a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, forma\u00e7\u00e3o continuada e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho aos profissionais compromete a efetividade dos direitos preconizados, sendo estas as principais quest\u00f5es abordadas a seguir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os encontros, os profissionais, in\u00fameras vezes, apresentaram queixas e preocupa\u00e7\u00f5es quanto as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Refletir sobre este aspecto se mostra imprescind\u00edvel, na inten\u00e7\u00e3o de aprofundarmos pondera\u00e7\u00f5es acerca dos desafios e possibilidades de trabalho em um espa\u00e7o que pretende garantir o cuidado e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7as e adolescentes v\u00edtimas de viol\u00eancia, abandono, neglig\u00eancia e maus tratos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pensarmos a complexidade e a organiza\u00e7\u00e3o do processo de trabalho com crian\u00e7as e adolescentes e suas fam\u00edlias, aponta-se como inadi\u00e1vel a instrumentaliza\u00e7\u00e3o destes trabalhadores, com promo\u00e7\u00e3o de conhecimentos que indubitavelmente s\u00e3o essenciais na execu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de assist\u00eancia social e garantia de direitos. Outrossim, promover discuss\u00f5es sobre \u00e9tica e estimular a criticidade s\u00e3o indispens\u00e1veis, sendo estas reais possibilidades de melhoria continua do Servi\u00e7o, que tem em sua origem a contradi\u00e7\u00e3o de cuidar de crian\u00e7as e adolescentes, livr\u00e1-los de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e abandono, mas por vezes as exp\u00f5e \u00e0 viv\u00eancias extremamente traum\u00e1ticas durante o acolhimento institucional, algo iniciado no momento da aplica\u00e7\u00e3o da medida, j\u00e1 que nas lentes desta crian\u00e7a ou adolescente quase sempre o melhor lugar para perman\u00eancia \u00e9 o seio familiar, cabendo ao Estado, aplicar a medida sempre que necess\u00e1rio, com a finalidade de garantir a prote\u00e7\u00e3o destes acolhidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este paradoxo se manifesta tamb\u00e9m na concep\u00e7\u00e3o de que o servi\u00e7o de acolhimento \u00e9 este lugar provis\u00f3rio, mas que pode ser de longa perman\u00eancia; tem caracter\u00edsticas de uma resid\u00eancia, mas abriga indiv\u00edduos que n\u00e3o tem parentalidade entre si; \u00e9 local de cuidado e prote\u00e7\u00e3o, mas muitas vezes crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o conduzidos ao servi\u00e7o de forma violenta. \u00c9 tamb\u00e9m importante, destacar o trabalho a ser realizado com as fam\u00edlias, n\u00facleo social fundamental conforme diretrizes da PNAS, pois o Brasil possui uma cultura de rompimento de v\u00ednculos familiares em decorr\u00eancia da pobreza, a\u00e7\u00e3o esta que perdura at\u00e9 o presente, visto que os usu\u00e1rios s\u00e3o quase sempre fam\u00edlias abandonadas pelo Estado. Cabe aos profissionais evitar a culpabiliza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, devendo considerar as express\u00f5es da quest\u00e3o social, responsabilidade do Estado e de toda a sociedade na premissa de cuidar e garantir direitos a crian\u00e7as e adolescentes. Perceber o acolhimento institucional para al\u00e9m dos estere\u00f3tipos, considerando as particularidades t\u00e3o desconsideradas pelo Estado, \u00e9 tarefa dos trabalhadores do servi\u00e7o. Desta forma, qualificar a pr\u00e1tica e buscar possibilidades mesmo diante dos entraves que se apresentam \u00e9 de extrema relev\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do pa\u00eds revela uma tradi\u00e7\u00e3o caritativa na pol\u00edtica de assist\u00eancia social, ainda amplamente percebida pela sociedade n\u00e3o como uma garantia de direitos, mas como um gesto de bondade por parte do poder p\u00fablico ou das organiza\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pela sua execu\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o distorcida contribui para a naturaliza\u00e7\u00e3o da precariedade com que muitas dessas organiza\u00e7\u00f5es operam, frequentemente com repasses financeiros insuficientes. Tal neglig\u00eancia escancara a omiss\u00e3o do Estado e \u00e9 agravada pela falta de conhecimento da sociedade sobre os fundamentos e a import\u00e2ncia desses servi\u00e7os. Ao serem tratados como atos de benevol\u00eancia, esses atendimentos refor\u00e7am uma l\u00f3gica preconceituosa e higienista, que ainda espera que crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade sejam institucionalizados, perpetuando, assim, pr\u00e1ticas alinhadas \u00e0 perspectiva do antigo C\u00f3digo de Menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas express\u00f5es se mostram evidentes quando in\u00fameras pessoas e at\u00e9 agentes atuantes em pol\u00edticas p\u00fablicas sociais sentem saudades das institui\u00e7\u00f5es totais, ou seja, crian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o utilizando os servi\u00e7os p\u00fablicos como qualquer outro cidad\u00e3o de direito, mas sim, com atendimento apenas nos espa\u00e7os da institui\u00e7\u00e3o de acolhimento, sem conviv\u00eancia e participa\u00e7\u00e3o da vida em sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A medida protetiva de acolhimento institucional permanece sendo percebida como uma solu\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Embora outros motivos para sua aplica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sejam citados, a pobreza permanece como o principal fator subjacente, dificultando a supera\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que levam ao acolhimento e, consequentemente, comprometendo a reintegra\u00e7\u00e3o familiar. Diante disso, \u00e9 essencial desconstruir os estere\u00f3tipos relacionados aos usu\u00e1rios desse servi\u00e7o e promover a capacita\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos profissionais, que enfrentam diariamente situa\u00e7\u00f5es que desafiam suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, valores e culturas. A forma\u00e7\u00e3o permanente se apresenta, assim, como uma ferramenta crucial para promover mudan\u00e7as significativas. Contudo, essa necessidade esbarra na dificuldade desses profissionais em acessar espa\u00e7os que favore\u00e7am reflex\u00f5es cr\u00edticas e pertinentes ao trabalho social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 desafiador \u2014 mas potente e imprescind\u00edvel \u2014 o fato de o trabalho social ser integrado por equipes profissionais de diversas \u00e1reas, com forma\u00e7\u00f5es de n\u00edvel m\u00e9dio, t\u00e9cnico ou superior, com enorme diversidade, e necessidade de conhecimentos e saberes espec\u00edficos para cada grupo, o que demonstra a imprescindibilidade de forma\u00e7\u00e3o a todos os profissionais envolvidos, e que de forma direta ou indireta perpassam a vida de crian\u00e7as e adolescentes acolhidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe t\u00e9cnica do servi\u00e7o tem papel fundamental no atendimento das crian\u00e7as, adolescentes e suas fam\u00edlias, pertencendo a este grupo o maior n\u00famero de participantes na forma\u00e7\u00e3o que originou este artigo. As trocas evidenciaram sentimentos de incapacidade e impot\u00eancia destes trabalhadores, que relataram a sobrecarga de trabalho e as m\u00faltiplas vari\u00e1veis presentes em suas atividades profissionais como fatores que contribuem para o adoecimento, al\u00e9m de, em algumas situa\u00e7\u00f5es, comprometerem a efic\u00e1cia do trabalho realizado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Maria Stela Graciani (2005), em seu livro Pedagogia Social de Rua chama nossa aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de se teorizar as pr\u00e1ticas da Educa\u00e7\u00e3o Social, buscando uma melhor compreens\u00e3o sobre essa realidade. [&#8230;] as reflex\u00f5es mais profundas sobre a educa\u00e7\u00e3o popular nem sempre tiveram ao alcance da maioria dos grupos ou inst\u00e2ncias base, seja pela quest\u00e3o de que a grande parte n\u00e3o entende a forma e a linguagem, seja porque os especialistas n\u00e3o divulgam seus trabalhos te\u00f3ricos, a n\u00e3o ser em congressos, semin\u00e1rios ou livros, aos quais a maioria n\u00e3o tem acesso (GRACIANI, 2005, p.69), o que dificulta a dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimento na \u00e1rea, e consequente qualifica\u00e7\u00e3o do trabalho. Ainda segundo Stela, al\u00e9m disso, almeja-se tra\u00e7ar uma metodologia para que a Educa\u00e7\u00e3o Social tenha capacidade de auxiliar as pessoas a construir um conhecimento cr\u00edtico da realidade para assim poderem transform\u00e1-la.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A citada transforma\u00e7\u00e3o constitui-se na liberta\u00e7\u00e3o da sociedade no que tange \u00e0 desigualdade, injusti\u00e7a, explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e depend\u00eancia cultural, a fim de satisfazer as necessidades sociais e constituir uma sociedade justa, realidade que somente pode ser efetivada, por meio da <em>pr\u00e1xis<\/em>. Tal concep\u00e7\u00e3o necessariamente deve estar nas discuss\u00f5es destes trabalhadores, pois caso n\u00e3o haja esta transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de trabalho social e garantia de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Reflex\u00f5es acerca dos saberes e fazeres dos trabalhadores do servi\u00e7o de acolhimento foram constantes durante os encontros, uma vez que no cotidiano todos os trabalhadores s\u00e3o considerados igualmente educadores, no entanto, o que ocorre \u00e9 uma segmenta\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas educativas. Os t\u00e9cnicos de refer\u00eancia desse Servi\u00e7o s\u00e3o profissionais que possuem saberes e pr\u00e1ticas bem definidos. No entanto, a observa\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica revela confus\u00e3o quanto aos pap\u00e9is desempenhados por assistentes sociais, psic\u00f3logos e t\u00e9cnicos de \u00e1reas complementares, como os pedagogos. Diante disso, torna-se fundamental retomar os limites de atua\u00e7\u00e3o e os espa\u00e7os s\u00f3cio-ocupacionais de cada profissional, a fim de garantir uma atua\u00e7\u00e3o mais organizada, \u00e9tica e eficaz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado das in\u00fameras demandas impostas aos profissionais do servi\u00e7o, que v\u00e3o desde o acompanhamento de crian\u00e7as e adolescentes em atendimentos m\u00e9dicos at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o em audi\u00eancias concentradas. O educador social, por sua vez, \u00e9 respons\u00e1vel pelo acompanhamento dos acolhidos em todos os aspectos do cotidiano, o que, somado ao n\u00famero insuficiente de trabalhadores, gera uma significativa sobrecarga. Soma-se a isso o papel dos profissionais de apoio, que frequentemente assumem tarefas que extrapolam suas atribui\u00e7\u00f5es formais, mas que se tornam necess\u00e1rias para garantir o atendimento adequado \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes. Cabe ao coordenador organizar essa complexa din\u00e2mica, acompanhar o trabalho t\u00e9cnico e gerenciar toda a administra\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de acolhimento. Esse cen\u00e1rio, marcado por ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es e fronteiras profissionais pouco definidas, contribui para o adoecimento f\u00edsico e emocional de todos os envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto que originou in\u00fameras discuss\u00f5es \u00e9 quest\u00e3o de g\u00eanero envolvida na desvaloriza\u00e7\u00e3o do profissional que atua na educa\u00e7\u00e3o social, e embora haja diversidade de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, se faz necess\u00e1rio destacar que se trata de uma profiss\u00e3o com predomin\u00e2ncia de mulheres <s>atuantes<\/s>. Desta forma, nota-se a cren\u00e7a de que as compet\u00eancias exigidas ao cargo s\u00e3o naturalmente encontradas nas mulheres, como atributos tipicamente femininos, fator que somado ao baixo prest\u00edgio social e a oferta de trabalhadores dispon\u00edveis, ocasiona o pagamento de baixos sal\u00e1rios, aus\u00eancia de investimento em qualifica\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda temos que falar sobre o atendimento \u00e0s fam\u00edlias e as nuances trazidas neste trabalho. Quando falamos fam\u00edlias \u00e9 imprescind\u00edvel considerarmos todas as diversidades que esta sociedade pode produzir e descartarmos o modelo padr\u00e3o. Por isso, de acordo com a professora Regina C\u00e9lia Mioto (1997, p.120) \u201ca fam\u00edlia pode ser entendida como um n\u00facleo de pessoas que convivem em determinado lugar, durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas, ou n\u00e3o, por la\u00e7os consangu\u00edneos\u201d. Nesta perspectiva, esta \u00e9 a fam\u00edlia atendida no servi\u00e7o de acolhimento, sendo not\u00f3ria a incapacidade de atua\u00e7\u00e3o por vezes de alguns profissionais da pol\u00edtica de assist\u00eancia social, independente da forma\u00e7\u00e3o deste indiv\u00edduo, arraigado por uma l\u00f3gica social de modelos e padr\u00f5es que n\u00e3o abarcam as fam\u00edlias atendidas e a contemporaneidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A assist\u00eancia social \u00e9 historicamente marcada por atendimentos categorizados e segmentados, fragmentados em problem\u00e1ticas, com servi\u00e7os que foram dispostos a partir de \u201cindiv\u00edduos problemas\u201d e \u201csitua\u00e7\u00f5es especificas\u201d, como, trabalho infantil, abandono, explora\u00e7\u00e3o sexual, dentre outras, portanto n\u00e3o contemplando a fam\u00edlia em sua totalidade, conforme o Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social prop\u00f5e. Ocorre que no servi\u00e7o de acolhimento \u201cchove um pouco de tudo\u201d, ou seja, todas essas situa\u00e7\u00f5es se entrela\u00e7am e as diferentes hist\u00f3rias se encontram e precisam ser contempladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse olhar cuidadoso acerca do trabalho social realizado com fam\u00edlias que tem a marca da institucionaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o inegoci\u00e1vel aos trabalhadores que se prop\u00f5em a atuar em servi\u00e7os de acolhimento, n\u00e3o sendo esta a salva\u00e7\u00e3o para todas as mazelas experenciadas por este grupo, que carece de garantia de seus direitos e acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas que abarquem suas reais necessidades, no entanto, estes trabalhadores s\u00e3o tamb\u00e9m a representa\u00e7\u00e3o deste Estado, devendo ser, apesar dos in\u00fameros desafios, os facilitadores da supera\u00e7\u00e3o de vulnerabilidades que originaram o acolhimento institucional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sabido que a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho impacta diretamente a qualidade da execu\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es da assist\u00eancia social, manifestando-se em contrata\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, aus\u00eancia de planos de carreira, desvio de fun\u00e7\u00f5es, entre outras fragilidades. Ainda assim, devido \u00e0 complexidade do trabalho socioassistencial, exige-se dos profissionais um conjunto de compet\u00eancias espec\u00edficas para atuarem na Pol\u00edtica Nacional de Assist\u00eancia Social. Entre elas, destacam-se: a compreens\u00e3o da trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da assist\u00eancia social e das pol\u00edticas sociais, o dom\u00ednio sobre os direitos socioassistenciais, o trabalho social com fam\u00edlias, al\u00e9m do conhecimento do arcabou\u00e7o legislativo, te\u00f3rico e metodol\u00f3gico referente ao p\u00fablico atendido.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 agravada pela hist\u00f3rica desprofissionaliza\u00e7\u00e3o e forte participa\u00e7\u00e3o do voluntariado, pela cultura do improviso, pela fr\u00e1gil presen\u00e7a do Estado na sua regula\u00e7\u00e3o, provis\u00e3o e financiamento que marcou toda a trajet\u00f3ria da Assist\u00eancia Social brasileira at\u00e9 o per\u00edodo anterior ao SUAS. Apesar dos consistentes avan\u00e7os introduzidos pelo Sistema, os modos de gerir e operar esta pol\u00edtica no pa\u00eds carecem, ainda, de mudan\u00e7as. (MUNIZ, 2011, P. 31)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>A situa\u00e7\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 agravada pela hist\u00f3rica desprofissionaliza\u00e7\u00e3o e forte participa\u00e7\u00e3o do voluntariado, pela cultura do improviso, pela fr\u00e1gil presen\u00e7a do Estado na sua regula\u00e7\u00e3o, provis\u00e3o e financiamento que marcou toda a trajet\u00f3ria da Assist\u00eancia Social brasileira at\u00e9 o per\u00edodo anterior ao SUAS. Apesar dos consistentes avan\u00e7os introduzidos pelo Sistema, os modos de gerir e operar esta pol\u00edtica no pa\u00eds carecem, ainda, de mudan\u00e7as. <\/p><cite>(MUNIZ, 2011, P. 31)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Os profissionais participantes da forma\u00e7\u00e3o se mostraram comprometidos e cr\u00edticos a in\u00fameras problem\u00e1ticas aqui apontadas, sendo esta uma pot\u00eancia das equipes no cotidiano do trabalho direto com crian\u00e7as e adolescentes. As discuss\u00f5es e reflex\u00f5es acerca das pr\u00e1ticas, experi\u00eancias exitosas e constru\u00e7\u00e3o de processos eficazes de trabalho se apresentaram como possibilidades de qualifica\u00e7\u00e3o do trabalho social, sendo este um olhar para o recurso humano, entretanto, h\u00e1 necessidades urgentes quanto a recursos materiais, estrutura e pol\u00edticas p\u00fablicas que atendam especificamente estas fam\u00edlias em vulnerabilidade, pois as mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o, com diminui\u00e7\u00e3o dos prazos para perman\u00eancia no servi\u00e7o, reavalia\u00e7\u00e3o do processo no poder judici\u00e1rio, mudan\u00e7as no processo de ado\u00e7\u00e3o e demais altera\u00e7\u00f5es no arcabou\u00e7o legislativo n\u00e3o far\u00e3o diferen\u00e7a caso n\u00e3o haja condi\u00e7\u00f5es concretas para a efetiva\u00e7\u00e3o destas leis.<\/p>\n\n\n\n<p>Termino este breve artigo reiterando a import\u00e2ncia de investimento nos recursos humanos do servi\u00e7o de acolhimento para crian\u00e7as e adolescentes, pois estes profissionais atuantes e em contato direto com crian\u00e7as e adolescentes acolhidos s\u00e3o os agentes transformadores da realidade. N\u00e3o h\u00e1 aqui a inten\u00e7\u00e3o de romantizar a profiss\u00e3o, tampouco, a expectativa do que \u00e9 sobre-humano por parte dos trabalhadores, e sim o reconhecimento de sua import\u00e2ncia e a necessidade de valoriza\u00e7\u00e3o profissional e investimento permanente na capacita\u00e7\u00e3o destes profissionais. Cabe salientar que o trabalho desenvolvido no servi\u00e7o de acolhimento institucional deve estar articulado a uma rede intersetorial, uma vez que a pol\u00edtica de assist\u00eancia social n\u00e3o pode atuar de forma isolada, tentando suprir lacunas e omiss\u00f5es decorrentes da inefici\u00eancia ou aus\u00eancia de outras pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisar o cotidiano a partir de referenciais te\u00f3ricos e conceitos que favore\u00e7am a compreens\u00e3o da realidade \u00e9 de suma import\u00e2ncia. Espa\u00e7os como os proporcionados nestes quatro encontros representam uma grande potencialidade para o fortalecimento dos trabalhadores e, consequentemente, dos servi\u00e7os em que atuam. Esse processo implica em transforma\u00e7\u00f5es significativas, tanto subjetivas quanto objetivas, no exerc\u00edcio profissional, contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas mais qualificados e para a luta pela garantia de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BRASIL. Lei 8.069 de 1990 que disp\u00f5e do Estatuto da crian\u00e7a e do adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p>______.&nbsp;<strong>Orienta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas: servi\u00e7os de acolhimento para crian\u00e7as e adolescentes<\/strong>. Bras\u00edlia: Conselho Nacional dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente e Conselho Nacional de Assist\u00eancia Social, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>GRACIANI, M. S. S. Pedagogia social de rua: an\u00e1lise e sistematiza\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia vivida. 5. ed. S\u00e3o Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2005. Cole\u00e7\u00e3o Prospectiva. v. 4.<\/p>\n\n\n\n<p>MIOTO, R. C. T. Fam\u00edlia e servi\u00e7o social: contribui\u00e7\u00e3o para o debate. Servi\u00e7o Social e Sociedade. S\u00e3o Paulo: Cortez, n.55, p.115-130, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>MUNIZ, E. Orienta\u00e7\u00f5es para processos de recrutamento e sele\u00e7\u00e3o de pessoal no Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social. Bras\u00edlia, DF. MDS \u2013 Secretaria Nacional de Assist\u00eancia Social, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"template":"","tags":[],"categoria_do_conteudo":[225],"class_list":["post-10429","conteudos","type-conteudos","status-publish","hentry","categoria_do_conteudo-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/10429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10429"},{"taxonomy":"categoria_do_conteudo","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paulus.com.br\/assistencia-social\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_do_conteudo?post=10429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}