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23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
:: Domingo
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NOS CAMINHOS DO REINO, ENCONTRARÁS SABEDORIA E CRUZ, MAS LEMBRA: SOFRIMENTO NÃO SALVA!
Frei Jacir de Freitas Farias, ofm
I. INTRODUÇÃO GERAL
“Quem não carrega a sua cruz e não vem após mim, não pode ser o meu discípulo” (Lc 14, 27). Essa emblemática frase dita por Jesus, conservada pela comunidade lucana, nos coloca na condição do seguimento, do caminho. Caminho, em hebraico derek, é o que nos lembra o texto das bem-aventuranças (Mt 5,1-12 e Lc 6,20-23). Ser um bem-aventurado é pôr-se em marcha, estar a caminho. É como se Jesus dissesse: “Em marcha os que têm sede e fome de justiça – continuem nessa luta, nesse caminho, porque vocês serão saciados” (Mt 5,6). Quem está em marcha é um bem-aventurado, pois está a caminho. E o caminho é dinâmico e exige estar de pé, disposto a não parar nunca. O bem-aventurado é aquele que caminha em Deus.
As leituras de hoje nos colocam, inevitavelmente, nesse caminho do seguimento de Jesus, o qual exige: sabedoria, amor ao excluído, reflexão e cruz. O que significa para nós seguir Jesus, tendo a cruz como caminho? O sofrimento salva? Como ser sábio no seguimento de Jesus? Eis algumas questões para a homilia deste domingo.
II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Sb 9,13-19): o caminho da sabedoria
A primeira leitura deve ser compreendida a partir dos capítulos anteriores e, sobretudo, de Sb 9,1-12, a oração do rei Salomão, na qual ele pede sabedoria para governar Israel. O seu contexto é a comunidade judaica radicada em Alexandria, no Egito. Salomão descreve a sua vida, igual à de todos os mortais, desde o nascimento, mas diferente, porque ele pediu a Deus e dele recebeu, como dom, a sabedoria. Sabedor de que a sabedoria é divina, ele diz que a prefere aos cetros e tronos, considerados bens terrenos preciosos. “Amei-a mais que a saúde e a beleza e me propus tê-la como luz” (Sb 7,10), afirma Salomão. E ele ainda acrescenta que todos os seus bens materiais – uma riqueza incalculável, provêm da sabedoria (7,11).
Para o povo da Bíblia, a sabedoria vem de Deus. Ela se personifica, torna-se visível, na Torá, na Palavra de Deus. Os judeus cristãos dirão, mais tarde, que Jesus é a Sabedoria de Deus (1Cor 1,24). Viver a Palavra de Deus em profundidade é ser sábio. Salomão incorporou a sabedoria no seu reino. Instituiu homens como sábios para recolher a sabedoria popular. A sua sabedoria foi notória entre todos os reinos da época. Verdade ou não, essa corrente de pensamento bíblico celebrizou Salomão como o grande sábio de Israel. Por isso, ele nem precisava perguntar a Deus o que deveria fazer para se salvar, pois sabia o caminho e o ensinava a todos.
A terceira parte da oração de Salomão, que constitui a nossa primeira leitura de hoje, constata que ao ser humano não compete conhecer o desígnio de Deus. Como criaturas, somos limitados. Temos um corpo corruptível que pesa sobre a alma. O corpo é uma tenda de argila que oprime a mente. Em outras palavras: o corpo impede o caminho da alma para o espiritual, o imortal e o celestial. Outros textos do Primeiro e do Segundo Testamentos – usamos as terminologias Primeiro e Segundo Testamentos, antes da Era Comum (a.E.C.) e Era Comum (E.C.) por razões ecumênicas com os judeus, que tratam dessas três questões – são: Rm 7,23; Gl 7,17; Is 38,22; Jó 4,19; 2Cor 4,7; 5,1.4; 2Pd 1,13; 1Pd 1,13. Também a filosofia da época, Platão, Cícero, Sêneca e Horácio, tem afinidade com esse texto do livro da Sabedoria.
Qual é, então, a diferença do pensamento judeu, expresso no livro da Sabedoria, para essas filosofias? A resposta é: para o autor de Sabedoria, alma e corpo são sinônimos de uma mesma realidade. Elas não têm dois caminhos diversos e uma não é prisão da outra. E o que é mais evidente: os caminhos de Deus somente podem ser conhecidos com o dom da sabedoria dada ao ser humano e vinda dos céus como santo espírito (17). Aqui está a essência da oração de Salomão. A salvação do ser humano do Primeiro Testamento consiste em proteção divina diante dos perigos naturais e iminentes. Um caminho perfeito no seguimento da Torá (Lei/conduta) só será possível com o dom da sabedoria, que Deus envia do céu pelo seu espírito (v. 17). Salomão sabia disso. Será que os nossos governantes modernos têm consciência desse fato? Estamos próximos ao período eleitoral. Entre nossos políticos, encontramos pessoas sábias para nos governar?
Em relação aos judeus de Alexandria, o livro da Sabedoria aponta o caminho a partir da oração de Salomão, da qual eles haviam se apropriado, para resistir com fé diante do mundão pagão das filosofias gregas. Os cristãos, mais tarde, irão questionar e rejeitar a filosofia grega – Tertuliano dirá: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?”, mas acabarão assimilando seus valores no cristianismo.
2. Evangelho (Lc 14,25-33): condições para seguir o Mestre Jesus
Só quem se coloca na dinâmica do mestre, daquele que ensina, é que pode manter-se no caminho. O caminho se faz caminhando, dizem os poetas. O caminho é sempre uma marcha que não para nunca.
O evangelho de hoje faz parte da famosa viagem lucana de Jesus rumo a Jerusalém (9,51-19,27). Jerusalém é a meta final do Salvador, pois ali ele iria realizar plenamente, com sua morte e ressurreição, a sua missão salvífica. A lógica do caminho de Jesus soa um tanto absurda: é preciso odiar pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida; carregar a própria cruz; renunciar a tudo que possui. E, além de tudo isso, ele dá um sábio conselho: sentar-se e preparar a caminhada, calculando, ponderando despesas etc. Em outras palavras: refletir antes de começar.
Jesus se dirige às grandes multidões que o acompanham de forma proselitista. Todos, no entanto, teriam que fazer opção: rejeitar ou aderir à sua proposta. E é o que ocorre. Jesus busca adeptos, discípulos, para a sua proposta de Reino. Ser discípulo de Jesus é o mesmo que entrar no Reino de Deus. Seguindo a lógica do Shemá Israel – Ouve, ó Israel, que estabelece três condições para viver a fé judaica: amar com o coração, a alma (ser) e as posses (Dt 6,4-5), Jesus usa três vezes a expressão “ser meu discípulo” (vv. 26, 27 e 33). O odiar pai, mãe etc., por se tratar do sentimento, representa o coração; o carregar a cruz a ponto de martírio representa o ser; e o renunciar aos bens, as posses. O discípulo preparado é o que segue o Shemá (Jacir de Freitas Faria, A releitura da Torá em Jesus. RIBLA, 40. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 18).
Renunciar a tudo e carregar a própria cruz (vv. 25-26). Essa é a primeira condição do novo discípulo. As comunidades de Mateus e de Marcos também haviam se lembrado desses ensinamentos de Jesus (Mt 10,37; 19,29; Mc 8,34), mas a de Lucas foi mais radical. Ela acrescentou deixar mulher, renunciar a própria vida e odiar. O verbo odiar jamais poderá ser entendido como rejeição aos pais, mulher e filhos. Um judeu nunca ensinaria ódio aos familiares, base de sua vida e de sua fé. Ódio aqui significa ter quer demonstrar mais dedicação a um, em detrimento do outro. O discípulo terá que fazer opção no seguimento, ser desapegado de tudo, por causa de Jesus. A comunidade de Mateus explicou isso muito bem, quando usou o comparativo “amar mais” (Mt 10,37). Nessa mesma linha de pensamento está o carregar a própria cruz, que pode significar martírio e os sofrimentos advindos da cruz, a cruz pesada da vida. Até nisso, o discípulo tem que ter clareza no seguimento.
Planejar a caminhada. Tenho condições de ser discípulo? (vv. 28-32). As duas parábolas que seguem, a da torre e a do rei, querem dizer a mesma coisa: é preciso ter um planejamento, antes de iniciar a caminhada. Quem começar a construção de uma torre sem condições de terminá-la será motivo de chacota para os seus vizinhos. O mesmo ocorre com rei que não tem forças para enfrentar o inimigo, melhor seria negociar a paz.
O objetivo deve ser calculado conforme as nossas possibilidades. Se quero ser discípulo, devo ter consciência das minhas limitações. Para Jesus, quem não tivesse o martírio como possibilidade de consequência da opção pelo Reino não seria capaz de segui-lo. E Jesus diz isso para uma multidão. E termina enfaticamente: “quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser o meu discípulo” (v. 33).
3. II leitura (Fm 9b-10.12-17): Paulo, o discípulo perfeito, prega a compaixão
O escravo Onésimo, que em grego significa útil, é o centro da ação de benevolência que Paulo solicita ao amigo Filêmon, um convertido por Paulo, na prisão de Éfeso, dono desse escravo fugitivo. Paulo se apresenta como um velho e prisioneiro, que pede e não manda, como poderia fazê-lo (vv. 8-9). Paulo é aqui o sábio seguidor de Jesus. A sua caminhada, desde a conversão, muito lhe ensinou. Agora, prisioneiro de Cristo, ele implora compaixão pelo escravo Onésimo, que deveria, segundo as leis, ser ferrado na testa, lançado às feras ou crucificado. Paulo pede que esse escravo, seu filho na fé e gerado por ele para Deus, fosse tratado como irmão no Senhor. Paulo diz a Filêmon que o escravo deve ser recebido como ele mesmo, rompendo, em Cristo, as barreiras entre escravos e livres. Com esse gesto, Paulo colocou em prática o ensinamento do seguimento de Jesus. Ele deixou tudo, estava prisioneiro da cruz de Cristo, e dava mostras de um novo tempo para os seguidores do Mestre.
Onésimo é útil para a demonstração de fé do amigo Filêmon. Ele perde um escravo, mas ganha um irmão. Onésimo é útil, a escravidão é inútil. Onésimo é útil para nos indicar um caminho de fé sem diferenças sociais, conforme nos testemunhou o apóstolo Paulo.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A interpretação dos textos acima levou muitas comunidades de fé a interpretar a cruz como os sofrimentos da vida: dificuldades financeiras, drogas na família, traições etc. Seria aconselhável distinguir o sentido real da cruz de Cristo, como consequência de sua vida e não como fatalidade, do sentido popular de carregar a cruz – sofrimento passivo, simplesmente porque Jesus morreu na cruz.
Deus não quer o sofrimento. O sofrimento não é caminho de salvação. Muitos cristãos assim agiram ao longo da história, numa tremenda acomodação e aceitação do seu sofrimento, sem reagir diante das dificuldades, causando miséria humana e social. O cristão é um ser humano sempre a caminho. Sofrimento não salva. O que salva é o seguimento.
Aqueles que detêm o poder, seja econômico ou político, fazem uso dessa premissa para manter ou acobertar as injustiças. Como atuamos para evidenciar esse fato, sobretudo em relação àqueles que o fazem em nome da fé? Escravidão não é sinônimo de cidadania.
A vida de cada um de nós é marcada sempre pelas opções que fazemos. Já dizia a poetisa Cecília Meireles: “ou isso ou aquilo”. Temos que optar sempre. E toda opção exige renuncia, planejamento e dedicação à missão escolhida. Deus nos chama e nos oferece o dom da sabedoria. “E feliz de quem a encontra. Ganhá-la vale mais do que a prata, e o seu lucro mais do que o ouro... Felizes são os que a retêm” (Pr 3,13-18).