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17º DOMINGO COMUM (27 de julho)
:: Domingo
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DISCERNIMENTO E OPÇÃO PELO REINO
I. INTRODUÇÃO GERAL
O Reino é o resultado de duas profundas aspirações: de Deus e das pessoas. O desejo de Deus, tantas vezes expresso na Bíblia, é que a humanidade viva em harmonia e paz. O desejo das pessoas é ter vida em abundância, numa sociedade onde as relações humanas tragam a marca da justiça, da fraternidade e do bem comum. O que Deus quer é aquilo a que o ser humano aspira.
Contudo, a história da humanidade é freqüentemente caótica porque não há discernimento e opção pela vida que o Reino quer comunicar. Constatamos, então, que o poder, a riqueza e os bens em geral servem para aumentar o caos, a dor e a morte. Como encontrar, de novo, o caminho da vida à qual todos aspiram e pela qual Jesus veio ao mundo, morreu e ressuscitou? Eis a proposta da palavra de Deus para este dia.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (1Rs 3,5.7-12): O poder a serviçodo povo
Os fatos narrados nesse texto situam-se por volta do ano 971 a.C. Salomão herdou de seu pai Davi grande império. Cabe-lhe, agora, administrá-lo sabiamente. O rei está em Gabaon para oferecer um sacrifício (v. 4). É ali que Javé se comunica com ele em sonho e lhe diz: “Peça-me o que desejar e lhe darei” (v. 5).
Salomão tem consciência de suas limitações e incapacidades, que se tornam mais evidentes quando comparadas com a capacidade e equilíbrio encontrados em Davi (v. 7). A função do rei pode ser sintetizada em três itens, presentes no texto: 1. Governar: o rei é responsável pelo bom uso do bem público, preocupando-se em primeira mão com o bem-estar e a prosperidade do povo (cf. v. 9); 2. Julgar: cabe a ele preservar e promover a justiça, sem discriminações. A ordem social depende de leis justas que não privilegiem uns em detrimento de outros; 3. Ter bom senso e discernimento em vista da justiça: o poder se converte em benefício ou iniqüidade, dependendo do uso que dele se faz.
Na oração de Salomão, todos esses requisitos estão presentes. Ele foi escolhido para governar, julgar e saber discernir. Mais ainda: essa oração do rei revela qual seja a posição da autoridade em relação a Deus e ao povo. Em relação a Deus: Salomão assume a atitude de servo, chamando a Deus de Senhor e considerando-se servo dele (cf. v. 7). O rei, portanto, não é senhor, mas servo. Em relação ao povo: Salomão tem consciência de que o povo pertence a Deus (cf. v. 9). Ele, pois, não poderá assenhorear-se do povo sem estar em gritante contradição com sua função de servo do povo de Deus.
O discernimento que Salomão fez agradou a Deus (v. 10), que lhe concede sabedoria para praticar a justiça (v. 11) e um coração sábio e inteligente (v. 12; o coração, para o povo de Deus, é a sede do discernimento).
Tal é o ideal do rei ou administrador da coisa pública. A história de Israel, contudo, leu em Salomão, e na sua posterior administração, a perversão do poder. Isso se explica tendo em conta o seguinte: esses relatos sobre Salomão receberam sua redação definitiva no período que vai de antes até o fim do exílio na Babilônia. São fruto da redação deuteronomista do tempo de Josias (640-609 a.C.) e do exílio. A redação deuteronomista reflete sobre os porquês da catástrofe nacional e detecta em Salomão um “vírus” que passou a seus sucessores, culminando com a desgraça total do povo e da nação (exílio). Esse vírus pode ser detectado na política de Salomão – tão diferente de Davi –, na administração e na burocracia que, já no seu tempo, haviam levado o povo à escravidão.
Pondo no início do reinado de Salomão a oração que lemos hoje, a escola deuteronomista quis fazer grave advertência: as intenções iniciais do rei podiam ser boas, mas ele não foi capaz de promover o bem do povo, a justiça e a paz, porque a febre do poder tomou conta dele. E, se hoje amargamos a catástrofe nacional, é porque o vírus salomônico se tornou epidemia…
2. Evangelho (Mt 13,44-52): Discernimento e opção pelo Reino
O texto de hoje é a conclusão do discurso sobre o mistério do Reino (13,1-52). Podemos dividir o texto deste dia em três partes: vv. 44-46; vv. 47-50; vv. 51-52.
a. Opção radical pelo Reino (vv. 44-46)
Estes três versículos encerram duas pequenas parábolas: a do tesouro escondido (v. 44) e a da pérola de grande valor (vv. 45-46). Ambas focalizam o tema da opção radical pelo reino da justiça, diante do qual vale a pena arriscar tudo, alegremente (veja 6,33). Ambas mostram a atitude de alguém que vende tudo o que possui para conquistar o novo, algo de valor incalculável, o único valor absoluto. Podemos imaginar os efeitos que essas parábolas tiveram sobre as comunidades siro-palestinenses, desiludidas e ameaçadas de afrouxamento.
A primeira parábola é a do tesouro escondido no campo (v. 44). A parábola não compara o Reino com o tesouro, mas quer mostrar o estado de ânimo de quem encontra esse tesouro, comparando esse estado de ânimo com o que deveria animar os que descobrem o reino da justiça como valor absoluto de suas vidas. Como reage quem encontra um tesouro? Como reage quem descobriu que a justiça é o único caminho para conseguirmos sociedade e história novas?
O texto não afirma que o descobridor estivesse à caça de tesouros escondidos. Simplesmente topa com ele, sem esforço. O reino da justiça também não é objeto de buscas intermináveis; está debaixo de nossos pés, a nosso alcance, em nosso chão. A reação de quem encontrou o tesouro é de alegria e desembaraçamento de tudo para a obtenção desse tesouro. Aí está, diz Mateus, o estado de ânimo de quem descobriu, na prática da justiça do Reino, o filão escondido do mundo novo.
O Reino é dom gratuito, manifestado na prática de Jesus. A esse achado inesperado correspondem alegria e desprendimento total. Não se trata de renunciar para obter o Reino. É sua descoberta que possibilita desembaraçar-se alegremente de tudo.
A segunda parábola é a da pérola de grande valor (vv. 45-46). Há algumas diferenças em relação à anterior: o fato de o comprador estar buscando pérolas e a falta de menção da alegria com que vende todos os seus bens. Contudo, o significado é o mesmo da parábola anterior: pelo fato de encontrar um valor maior, desfaz-se de tudo para possuí-lo, porque vale a pena. Fique bem claro, porém, que o Reino não é troca de mercadorias. Não pode ser comprado como o campo que esconde o tesouro ou como a pérola. As parábolas querem salientar que nada faz falta a quem descobriu o sentido e o valor da luta pela justiça.
b. O Reino em meio aos conflitos (vv. 47-50)
A parábola da rede lançada ao mar (vv. 47-50) prolonga o tema da parábola do joio no meio do trigo (cf. a parábola do domingo passado) e tem sabor de escatologia final. Na sociedade convivem lado a lado “peixes bons” e “peixes ruins” (Lv 11,9-12 e Dt 14,9 prescreviam quais peixes podiam ou não ser comidos). Quem lança a rede é Deus e só a ele compete ordenar a triagem. O juízo constará de separação. A parábola, portanto, mostra às comunidades cristãs qual será sua sorte final se perseverarem no discernimento e na opção definitiva pelo reino de justiça.
c. Convite ao discernimento (vv. 51-52)
Os vv. 51-52 pretendem ser a conclusão das parábolas. A insistência do v. 51 recai sobre a compreensão ou o discernimento: “Vocês compreenderam tudo isso?” Não se trata simplesmente de entender o sentido das parábolas, mas antes de com-preender (tomar consigo, apropriar-se), assumir o ensinamento e a prática do Reino que elas manifestam. Trata-se de compreender o mistério do Reino, que pode ser resumido em dois pontos: 1. O mistério do Reino já foi e continua sendo manifestado naquilo que Jesus diz e realiza; 2. O que ele diz e realiza se prolonga na práxis da comunidade cristã em meio a uma sociedade conflituosa. A função da comunidade não é fazer a triagem ou fugir da realidade, mas dar continuidade à prática de Jesus.
Os discípulos (e as comunidades cristãs) afirmam ter com-preendido tudo isso. “Por isso – diz Jesus – todo doutor da Lei que se torna discípulo no reino do céu é como um pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas” (v. 52). O versículo faz uma comparação entre o doutor da Lei e o pai de família. É possível ver nesse doutor da Lei uma referência ao próprio autor do evangelho (Mateus) que relê o AT (coisas velhas) à luz da novidade de Jesus (coisas novas). Tudo faz parte do patrimônio da fé; porém, seu valor está em se ter feito discípulo do Reino.
Mas pode ser também o modo pelo qual Mateus justifica as adaptações das parábolas às novas realidades das comunidades (a “explicação” da parábola do joio é uma releitura das comunidades). Ser discípulo do reino de justiça permite administrá-lo sabiamente (o pai de família), para que sua mensagem ilumine e transforme os novos desafios.
Pode, ainda, ser uma referência à catequese. O Evangelho de Mateus era uma espécie de manual do catequista cristão (doutor da Lei que se torna discípulo do Reino). Ora, também a catequese primitiva sentiu a necessidade de adaptar o núcleo central da fé às novas situações e desafios de uma sociedade conflituosa. Por isso o catequista estava e está sempre em busca de algo que, partindo da prática de Jesus, possa constituir fonte de inspiração e levar à solução dos novos conflitos que se apresentam.
3. II leitura (Rm 8,28-30): Filhos no Filho, destinados à glória
Os três versículos da carta aos Romanos lidos na liturgia deste domingo são a conclusão da argumentação paulina em torno do segundo princípio fundamental (8,14-30) que rege a vida do cristão: a filiação divina (para o primeiro princípio, cf. o comentário à II leitura dos domingos anteriores).
Nós somos filhos de Deus e, como tais, somos destinados à glória. Isso faz parte do projeto de Deus, que propõe vida em plenitude, de acordo com a sua vontade. Deus criou o ser humano destinado à glória e não ao fracasso, como pregavam certas correntes de pensamento da época.
Paulo, mediante o discernimento à luz da prática de Jesus morto e ressuscitado, chegou à certeza (“sabemos”) de que “todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados segundo o seu desígnio” (v. 28). Como chegou a essa conclusão? Lendo os acontecimentos e a vida na perspectiva do que Deus realizou com a morte e ressurreição do seu Filho, Jesus, e com a efusão do Espírito Santo. Com base nisso Paulo descobre o Deus de amor que provê às necessidades dos que nele crêem (cf. Sl 97,10; 145,20; Tb 13,14; Ecl 8,12; Eclo 34,16), chegando ao gesto ímpar de amor, anistiando a humanidade e convidando-a à vida mediante a morte e ressurreição do seu Filho (cf. 8,3).
Os cristãos de Roma tiveram conhecimento do amor de Deus por meio do anúncio do evangelho. Tornando-se cristãos, responderam ao evangelho e, mais ainda, ao amor de Deus.
Os dois versículos seguintes (vv. 29-30) desenvolvem o pensamento já esboçado no v. 28. O ápice do projeto divino é Deus sendo glorificado e os seres humanos participando dessa glória, tornando-se “imagem do Filho, a fim de que o Filho seja o primeiro entre muitos irmãos” (v. 29). Paulo sintetiza o que é a filiação divina: é ser filho no Filho, fazendo que o mundo seja grande fraternidade, com um mesmo Pai: Deus. Tal é o objetivo do anúncio evangélico dirigido às pessoas.
Os cristãos de Roma tinham consciência do que significava ser filhos de Deus. Mas custava-lhes crer, porque olhavam demais para o número dos próprios limites e falhas. Paulo garante: quem foi chamado a viver, no Filho, a filiação divina, já foi anistiado por Deus (“os que chamou, também justificou”). A precariedade humana não é o fator decisivo; decisivo é o amor do Pai que perdoa. E não só perdoa, mas também glorifica, ou seja, vai conduzindo até que todos possam viver a plenitude do seu amor (v. 30).