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6º DOMINGO DO TEMPO COMUM
 
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BEM-AVENTURADOS OS POBRES
I. INTRODUÇÃO GERAL
Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas têm várias falas de Jesus, colhidas, não há quem duvide, de fonte escrita comum, a chamada fonte Q. O grande sermão que recolheu os mais importantes ditos de Jesus sobre a vida e o comportamento do discípulo, tanto em Mateus quanto em Lucas, começa com as bem-aventuranças.
A localização do grande discurso é diferente em um e em outro evangelho. Em Mateus é o Sermão da Montanha, o ensinamento de Jesus semelhante ao da torá, que Moisés trouxe do monte Sinai. É a Nova Lei, e Jesus é novo Moisés.
Em Lucas, o discurso é feito na planície, onde vive a humanidade. Acompanhado pelos doze apóstolos, Jesus desce da montanha, onde havia falado com Deus, e, na baixada, dirige-se a todos os discípulos e à multidão de sofredores a seu lado.
O evangelho deste domingo proclama as bem-aventuranças segundo Lucas. Jesus se dirige diretamente aos discípulos: “Felizes/bem-aventurados sois vós”. Além das bem-aventuranças, ele traz maldições. Insiste numa oposição entre o agora e o depois. Esse depois seria apenas na outra vida, na eternidade, ou já pode acontecer aqui, com a realização plena (“assim na terra como no céu”) do reinado de Deus?
Aos discípulos, que são pobres, não há nenhuma promessa para o futuro; eles não ficarão ricos, tal como serão alimentados os que estão passando fome. Aos pobres discípulos já agora pertence o reinado de Deus. Os que agora passam fome ou estão chorando terão seus problemas resolvidos, sua sorte vai se inverter. Vai se inverter também a sorte dos ricos, dos que vivem rindo e dos já fartos. Que significado daremos hoje a tudo isso?
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1a leitura (Jr 17,5-8)
O profeta diz quem é uma pessoa bendita, abençoada, feliz e quem, ao contrário, é infeliz, maldito. Na liturgia de hoje, o texto de Jeremias prepara a leitura do evangelho. Aqui, feliz é quem busca Javé, o SENHOR. Desgraçado ou maldito é quem se apoia somente nas forças humanas.
Usando as mesmas comparações do Salmo 1, Jeremias primeiro fala do maldito. Isso certamente tem que ver com o que foi dito antes (vv. 1-4): crítica ao abandono da fé em Javé para buscar outros deuses, à idolatria, à substituição de Javé, o Deus dos pobres, por outros valores. O castigo será o exílio, com o saque das riquezas, o abandono forçado da sua herança, a terra, e a escravidão em país estrangeiro.
O motivo de tudo é ter afastado Javé do pensamento, do coração, para procurar apoio apenas nas forças humanas. Esquecer-se de Javé é esquecer que ele é a força dos fracos, o Deus que está junto, que se manifesta na nossa história, que ouve o clamor dos oprimidos e desce para libertá-los (Ex 3).
A consequência para quem se esquece de Javé é a perda da confiança em si mesmo e nos recursos próprios e a busca de apoio em forças humanas. Poderá ficar seco, sem forças verdadeiras, como um arbusto no deserto inabitável.
Ao contrário, aquele que confia em Javé, o vencedor do faraó, é feliz, é bendito. O mesmo Javé, Deus dos pequenos, será a sua segurança. E a pessoa estará sempre produzindo seus frutos e vendo os resultados, como árvore plantada à beira da água.
Salmo 1,1-2.3.4.6
O salmo canta os dois caminhos, o do justo e o do malvado.
2a leitura (1Cor 15,12.16-20)
Em Corinto, diziam que não existia ressurreição, ou seja, outra vida com Deus depois da morte. Paulo responde nos versículos do capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios que constituem a 2ª leitura de hoje.
Não se sabe com certeza se negavam a ressurreição por influência da filosofia grega – especialmente do platonismo, que não valorizava o corpo, considerado prisão da alma – ou se porque, mais provavelmente, pensavam já estar ressuscitados e em plena comunhão com Deus, por força de sua alta espiritualidade.
De qualquer maneira, a resposta de Paulo é muito clara: a nossa fé se fundamenta na ressurreição de Jesus. A ressurreição significa que Deus confirmou e apoiou Jesus em tudo, especialmente na sua obediência ou coerência até a morte de cruz. Sem a ressurreição, Jesus não passaria de mais um profeta fracassado, como tantos na Palestina daquele tempo. Sem a ressurreição, Deus não teria entrado na história de Jesus e nós ainda estaríamos mergulhados no pecado.
Sem ressurreição, sem vida nova após a morte, quem morreu se perdeu. Sem esperança na vida de ressuscitados, confiar em Jesus como Messias seria a maior de todas as tolices. Assim arremata Paulo o seu raciocínio.
Evangelho (Lc 6,17.20-26)
O grande sermão de Jesus no Evangelho segundo Lucas não ocorre na montanha, mas na planície do dia a dia, com o pé no chão.
Na montanha ele passou a noite em oração e, ao clarear do dia, escolheu os doze apóstolos; agora, ao descer para a planície, encontra os outros discípulos e multidões de sofredores vindas de todas as partes.
O versículo 17, início do texto deste domingo, fala desses outros discípulos e das multidões de israelitas (da Judeia e de Jerusalém) e de não israelitas (de Tiro e Sidônia). Os versículos omitidos (18 e 19) caracterizam melhor quem são essas multidões: doentes e atormentados por espíritos impuros, que procuravam cura.
Essas doenças e tormentos de espíritos impuros (doenças mal conhecidas ou de ordem psicológica) eram consequência da situação miserável em que a maioria da população vivia; da fome, das dívidas e das situações sem perspectiva que atormentavam a quase todos.
A atração exercida por Jesus, a esperança que ele transmitia eram tais, que todos queriam pelo menos tocar nele. As multidões sofredoras que procuram em Jesus uma saída, uma esperança, uma perspectiva melhor para suas vidas são o pano de fundo do que vem a seguir.
Diferentemente do de Mateus, o Evangelho segundo Lucas tem bênçãos e também maldições. Em Mateus são oito bênçãos; aqui, são quatro bênçãos e quatro maldições. Em Mateus, as bênçãos são atribuídas a todos os que praticam o objeto da bênção; aqui, as bênçãos de Jesus se dirigem diretamente aos discípulos e aos sofredores que lhes estão próximos.
Em comum com Mateus, a bênção dos pobres, em Lucas, diz que deles é o reino de Deus (“é”, no presente), enquanto os que choram e os que passam fome, no futuro, serão saciados e consolados. A bênção dos perseguidos, em Mateus, é a mesma dos pobres (o reino de Deus no presente), mas, em Lucas, dirigida diretamente aos discípulos, ela lhes promete apenas a recompensa eterna dos verdadeiros profetas.
Que significado tem o fato de a bênção dos pobres ser o reino de Deus já no presente? Que reino ou reinado de Deus é esse? E esse reinado ou domínio de Deus: a que outro reinado se contrapõe? Ao reinado de César? Ao reinado do dinheiro? O que é próprio e característico do reinado de Deus e em que é diferente, o oposto daquilo que acontece no reinado de César ou do dinheiro? Diante disso, que significado tem o fato de o reinado de Deus pertencer ao pobre (Lc) ou ao pobre por espírito (Mt)? Só o verdadeiro pobre tem condição de realizar o reinado de Deus?
O resultado aparece no futuro: “Vocês dessas multidões que passam fome (realidade tão presente no tempo de Jesus) poderão se saciar; vocês que vivem chorando poderão rir”. O reinado de Deus vai chegar e os pobres é que vão realizar esse mundo diferente; deles “é” o reinado de Deus. Os próprios sofredores serão os sujeitos da transformação, os promotores do reinado de Deus.
Lucas acrescenta também as maldições, no sentido oposto ao das bênçãos: ai dos ricos, dos fartos, dos que vivem rindo, dos aplaudidos por todos. Ai dos vencidos (vae victis), dizia o general vitorioso; ai dos incompetentes, faz eco o deus Mercado. Ai dos competentes, dos que se dão bem neste mundo, desde os ricos até os aplaudidos por todos, diz Jesus.
Vocês ricos, diz Jesus, já receberam seu conforto; agora – parece dizer – nada mais têm a esperar. Vocês que estão fartos vão passar fome; vocês que vivem rindo vão chorar; vocês, aplaudidos por todos, são falsos profetas.
Tudo leva a pensar na recompensa escatológica, a que vem depois desta vida. Mas a referência aos falsos profetas aponta para uma razão mais profunda: o contraste entre o reinado de Deus e o outro reinado. Foi para o reinado deste mundo que o falso profeta contribuiu; por isso é elogiado por todos; por isso Jesus o chama de infeliz.
O maior pobre perseguido e verdadeiro profeta que deu o passo decisivo para construir o reinado de Deus é Jesus. Na eucaristia, celebramos a entrega que ele fez de si mesmo à cruz e também o fruto, o resultado da entrega de si – a mesa comum da humanidade.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Uma pessoa feliz, realizada: quase instintivamente a gente pensaria em uma pessoa rica, pelo menos com recursos suficientes e fartos; uma pessoa sempre risonha, que leva a vida sem grandes problemas; além disso, uma pessoa querida, amada por todos, sem inimigos, sem opositores.
Certas Igrejas, como a Universal, divulgam a chamada teologia da prosperidade. Para essa teologia, a prosperidade é sinal da bênção de Deus. Quem é fiel a Deus (no caso, isso diz respeito especificamente ao dízimo) é abençoado, paga as dívidas, prospera, é feliz.
O pensamento de Jesus, no entanto, é completamente outro: abençoado e feliz é o pobre, o perseguido. Os que sofrem na fome e na dor também são felizes porque podem esperar o dia de estarem satisfeitos e sorridentes. Esse dia não deverá ser apenas o dia eterno do céu. Dizer que sim seria fazer da fé uma droga entorpecente para enganar o povo. Esse dia, essa vontade de Deus tem de cumprir-se “aqui na terra como no céu”, como pedimos todos os dias no pai-nosso.
Pedimos, mas o que fazemos para que isso se realize? Há esperança de que venha a se realizar, sim, porque há os pobres, a quem pertence o reinado de Deus. Quem só pensa em si e com os critérios do seu bolso jamais fará alguma coisa pelo reinado de Deus.
Quem tem tudo é infeliz, porque não tem a si mesmo.
 
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