ENTREVISTA – ASSESSORIA DE IMPRENSA PAULUS — 29/05/2009
Pe. José Dias Goulart é sacerdote há 54 anos e nesta entrevista falou sobre o livro que traduziu, Reflexões sobre o Sacerdócio – Carta a um jovem padre. Além disso, o sacerdote contou como se iniciou na vocação sacerdotal, refletiu sobre as dificuldades da vida de um padre e a alegria sentida ao participar da produção da primeira edição da Bíblia escrita em português no Brasil.
Pe. José Dias, com quantos anos o senhor sentiu o chamado para o sacerdócio e como aconteceu?
Eu não tinha vocação nenhuma porque quando fui para o seminário era criança, com 12 anos de idade. Fui para estudar porque diziam que a qualidade do ensino era boa e não tão cara. Só mais tarde, naturalmente, é que eu senti o chamado, comecei a estudar e achei que poderia arriscar. Minha família sempre foi tradicionalmente católica e praticante, meus pais, meus irmãos e irmãs... a família em si era muito grande, contava apenas com 19 irmãos (risos). Foi assim, quase que por um acaso. Foi somente com o tempo, uns cinco, seis, sete anos depois é que nos decidíamos a respeito dos votos, da profissão religiosa. Eu entrei no seminário em 1940 e só fiz a profissão em 1947.
Como foi para a sua família?
Não houve problema nenhum. Aliás, só depois eu fiquei sabendo que mamãe ficou contente. Ela nunca falou em vocação de padre, nada (certamente para não nos influenciar), e sempre deu total liberdade de escolha para todos nós.
O senhor decidiu seguir, de forma especial, os passos de Jesus Cristo. Como foi se adaptar ao ministério de presbítero?
Olha, não achei dificuldade nenhuma. Entrei no seminário e gostei muito, principalmente pelo trabalho que a gente fazia na gráfica, que me encantava. Além do mais, nós nos sobrepúnhamos às dificuldade encontradas.
O senhor viu a produção da primeira edição da Bíblia feita no Brasil. Como foi participar desse evento tão marcante?
Isso foi em 1943, eu era ainda um garotão que gostava muito do serviço realizado no linotipo (máquina que funde em bloco cada linha de caracteres tipográficos, composta de um teclado, como o da máquina de escrever). Ver o chumbo e aquelas linhas se formarem me deixava todo feliz. A primeira edição da Bíblia completa em português no Brasil fomos nós quem fizemos, em 1943, pois não tínhamos nenhuma edição católica feita no país. A única que existia, raríssima, era a do Pe. Matos Soares, que depois conseguimos adquirir os direitos e realizar algumas adaptações na linguagem, até porque entre Portugal e Brasil havia muitas diferenças nesse sentido. A primeira edição, se não me engano, contou com três mil exemplares; a segunda já apresentou uma tiragem de cinco mil e depois foi crescendo, pois fizemos muitas edições. A Bíblia era vista quase como um livro protestante, como diziam, e os católicos não a tinham em casa. Era algo raro ver uma família com Bíblia. Mas daí pra frente foi aquela arrancada.
Como foi ser assessor de imprensa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na época da ditadura militar?
Fui assessor durante 12 anos e meio. Era um tempo muito, muito difícil, mas para a Igreja foi até bom, porque ela, na época, exercia bastante influência. Naquele momento havia dois partidos no cenário político: o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que depois se tornou PMDB, e a Arena (Aliança Renovadora Nacional). Essa última era a favor do governo, enquanto que o primeiro era a oposição, por mais que ninguém pudesse, de fato, se opor, a não ser a CNBB. Eu não tinha receio nenhum porque toda a diretoria me amparava, eu tinha “costas quentes”. Os militares não tinham coragem de “tocar” nos bispos. Então eu vivia tranquilamente, trabalhava na assessoria de imprensa e tudo o que se divulgava estava sob a minha responsabilidade. E ninguém podia ser contra, caso contrário, a presidência da CNBB seria atingida diretamente. Os militares mostravam, aparentemente, que nos respeitavam muito, embora soubéssemos que no fundo não era bem assim.
O senhor, alguma vez, sentiu vontade de casar e constituir uma família?
Claro. Antes de ser ordenado eu fiquei naquela encruzilhada. Eu tinha 26, 27 anos, tempo dos sonhos. Mas tínhamos que tomar uma decisão e eu tomei. Na época a gente recebia o subdiaconato, que nem existe mais hoje, antes de receber o diaconato. E no subdiaconato é que a gente optava, se “ia” ou não. Então eu comentava com os colegas: “vamos ver em que bicho vai dar”. E aí toquei o barco para a frente.
Então o senhor não teve muitos conflitos com relação a isso?
Conflito a gente sempre tem, né? Em nossa vida inteira existe conflito, desde que a gente começa com o primeiro “chorinho” as dificuldades já aparecem, elas sempre existem. Mas a gente “se pega” com Ele lá em cima e toca o barco para a frente.
O livro Reflexões sobre o Sacerdócio, lançamento da PAULUS, pretende colaborar por meio de pensamentos do Cardeal Arinze. O que o senhor achou da proposta?
Aqui o autor mostra aquela vida normal que o padre tem e as dificuldades que ele enfrenta em todos os sentidos, levando em conta que, naturalmente, sem amor ninguém vive. E quais são os amores de um padre? O autor os apresenta muito bem: a Eucaristia, o Povo de Deus e claro que, em primeiro lugar, o seu ideal de ajudar o povo a crescer. Eu achei o livro muito prático, muito bom, com uma visão bastante tradicional do sacerdócio. Hoje outros escreveriam todo esse processo de maneira um pouco diferente, mas na prática é isso mesmo o que ocorre. Se o padre conhece sua missão, que é dedicar-se ao povo, vendo nele a sua família amplificada (pra usar a linguagem de Rui Barbosa referente à pátria), ele encontra forças para superar as suas dificuldades, porque o homem sonha sempre, a vida inteira. Quando jovenzinho sonha com uma menina bonitinha; quando é um pouquinho mais maduro sonha em ser alguém, chefe de família. Hoje nem existe mais isso, o chefe é o casal, aliás, nem é o casal mais, e sim a família como um todo, una. E sempre haverá aquele que se perguntará: “Mas eu não vou deixar ninguém nesse mundo, com o meu nome?”. No fundo ainda existe isso. “O que eu vou deixar aqui?”. Como Jesus dizia, você deixa uma pequenina família por meu amor, não por outras razões, mas pelo Reino de Deus. Aí então você terá uma família bem maior. E a gente se sente realizado na vida sabendo que pode ajudar muita gente. Eu diria que esse livrinho ajuda muito o padre, pois aborda bem esse lado prático, humano. Inclusive, quando o padre já tem uma certa idade, quando já está no ocaso da vida (como o autor diz), ele, que sempre deu atenção ao próximo, às vezes não recebe a que espera. Mas essas são as pequenas dificuldades que ele terá a vida inteira. Esse livrinho pode ajudar muito.
Que mensagem o senhor deixaria para os jovens que estão começando agora a seguir o ministério?
Fé em Deus e coragem na vida.