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ENTREVISTA – ASSESSORIA DE IMPRENSA PAULUS — 10/09/2009

DVDs Pluralidade Cultural, PAULUS, 2009

Rafael Santos, professor adjunto da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), membro do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine-RJ), ex-diretor do Grupo Cultural Afroreggae, consultor de projetos culturais e sociais e pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UERJ (Neab-UERJ).

 

1. Rafael, como surgiu a oportunidade de gravar a coleção de DVDs Pluralidade Cultural, da PAULUS? Conte-nos como foi essa experiência.

Eu recebi o convite da ATTA Mídia e Educação em função de minha experiência como estudioso da diversidade cultural e pela minha atuação, passada e presente, em projetos culturais voltados para a inclusão social e educação pela da arte. A experiência de gravar os quatro DVDs foi desafiadora, pois creio que as linguagens audiovisuais tendem a crescer, além de serem também uma forma de leitura e escrita do mundo, embora não anulem os modelos tradicionais. Ao contrário, servem para potencializá-los, e, sem a leitura e a escrita convencionais, seria difícil inclusive elaborar o roteiro dos programas, realizar a pesquisa necessária e ter o conhecimento acumulado e reflexivo ao longo do tempo. Creio que o aspecto mais positivo seja a visualização do autor, e a possibilidade de realizar textos com a oralidade, as imagens, os sons e ainda poder encaminhar o espectador para outras possibilidades, como a sugestão de livros, filmes, canções, poetas, dados etc.

2. Gostaria que expusesse brevemente sua trajetória profissional na área, desde o surgimento do interesse em trabalhar com a educação e suas relações com as questões étnicas e raciais até as funções que exerce hoje.

Eu sempre me vi como educador, talvez até por reconhecer o impacto da escola pública ao longo de minha trajetória. Do jardim de infância ao doutoramento, fui filho da escola pública. Estudei no Colégio Pedro II e em universidades públicas. Ao terminar a graduação, tive a oportunidade de trabalhar nos primeiros anos do grupo Cultural Afroreggae, o que interferiu na minha decisão de fazer o mestrado em educação, e não em história, como havia me programado. O fato de ser educador da rede pública de ensino fundamental me permitia atuar como educador formal e não formal todos os dias e perceber o impacto das culturas locais como ferramenta de transformação, mobilidade social, inclusão e articulação com outros valores. A consciência sobre a questão étnico-racial se redefiniu, embora já soubesse, na pele o que isto representa, por eu ser afrodescendente. Eu discuto esta questão pelo viés da pluralidade cultural e do diálogo entre as diferenças, sempre tendo os direitos humanos como elemento norteador das minhas reflexões e valorizando o princípio que rege a Coalizão das Cidades Contra o Racismo, que preconiza a necessidade da ampla participação das vítimas do racismo e do preconceito em todas as esferas de debate, e em diálogo com os outros segmentos.

3. Explique um pouco o que é pluralidade cultural e seus contextos atuais e manifestações no Brasil. Este pode ser um tema transversal a ser trabalhado na escola? Como se daria esse aprendizado?

A pluralidade cultural representa o reconhecimento das diversas formas de se expressar a condição humana e se vê em franca oposição aos modelos etnocêntricos buscando o diálogo e a convivência entre as diferenças. Também representa a percepção de que há pluralidades dentro de cada indivíduo, não a partir de sua condição étnico-racial, mas de gênero, orientação sexual, deficiência física, valores culturais, religiosos, entre outros aspectos, que se redefinem dentro de cada ser a partir do seu livre-arbítrio e de como articula para si essa bricolagem de referências. Não se deve entender a pluralidade cultural como um mero reconhecimento de diferenças, mantendo-as apartadas e separadas. O mais importante é garantir o direito à autodeterminação e à liberdade de escolhas. Do contrário estaríamos contribuindo para a formação de guetos, e o conceito de tolerância teria um viés segregacionista, diferentemente do que se defende que é a possibilidade de afloramento das diferenças e do convívio entre elas, criando-se inclusive novas alteridades pela reconfiguração que estes cruzamentos permitem. A igualdade na condição humana permite o verdadeiro afloramento das diferenças, das alteridades e da formação de individualidades democráticas e plurais, e não individualistas. É um nítido elemento a ser trabalhado de maneira transversal. Sobre a maneira de se trabalhar, prefiro que cada escola e cada equipe de professores defina a estratégia mais adequada para organizar a transversalidade e interdisciplinaridade, pois isto também integra o respeito às diferenças e à aposta na autonomia do trabalho docente. Do contrário, eu me distanciaria em relação ao que defendo.

4. Na introdução do primeiro volume da coleção Pluralidade Cultural, intitulado Diversidade e Condição Humana, você comenta que “o processo educativo é um processo de desnaturalização”. Explique como essa situação ocorre atualmente no ambiente escolar, social e familiar.

O processo educativo, tal como eu entendo, deveria servir para desconstruir valores que consideramos produtos da natureza, mas que na verdade são construções sociais. Na verdade, eu tento é desconstruir uma visão ossificada do que é educar. Assim, entendo que a diversidade cultural e a condição humana devem ter por base a desconstrução de supremacias, de valores que hierarquizam as culturas, que determinam que o modelo eurocentrado, branco, masculino, cristão e patriarcal organize as formas de existência. Creio que educar para a diversidade é também deixar evidente que os currículos escolares são frutos de processos históricos, de hegemonias políticas e de determinantes socioeconômicas.

5. Como os modelos etnocêntricos e eucentrado, apresentados nos DVDs, influenciaram a multiplicidade de culturas nos moldes discriminatórios que observamos hoje?

Ao determinarem o que é válido ou não como cultura, estigmatiza-se o que não é tratado como valor organizador da sociedade, desprezam-se conhecimentos para valorizar outros, impactando a subjetividade dos povos e a sua autoestima, permitindo também a formação de grupos xenófobos. Aliás, quando menciono que o direito às diferenças não deve servir para mantê-las isoladas, é também porque observo o quanto os discursos ultrareacionários ao redor do mundo se utilizam do argumento da manutenção de suas peculiaridades para rejeitarem o estrangeiro, o imigrante, o diferente, sobretudo no que assistimos na Europa e nos Estados Unidos atualmente, embora este problema ocorra em todos os lugares do planeta.

6. O que seria o olhar etnográfico? Explique a capacidade de depuração das diferenças entre as pessoas.

O olhar etnográfico é ter uma visão para o entendimento das diferenças, considerando as três etapas clássicas de etnografia, ou seja, a descrição dos valores étnico-culturais observados, a saber: 1) o estranhamento, até porque não se está acostumado com os valores e práticas assistidos; 2) o costume, pois começamos a entender e perceber uma possibilidade de normalidade das tradições presentes em outras culturas; 3) a experimentação. Se não vemos elementos que possam contrariar nossas escolhas, podemos inclusive provar um pouco desses valores. Aliás, as culturas nunca são puras, pois elas se modificam ao longo do tempo, muitas vezes imiscuindo-se umas com às outras, mais do que podemos perceber a priori.

7. No segundo DVD, Colonialidade de Saber e de Poder, você expõe a interação da indústria cultural como reprodutora da colonialidade do saber que atende a diversos tipos de interesses. Explique como ocorre esse processo e quais são suas consequências e interferências nas atitudes excludentes no país.

Os estudos pós-coloniais demonstram como vários lugares do mundo podem não ser mais colônias sob o aspecto jurídico-político, mas que são submetidos às lógicas dominadoras dos países centrais, mediante a hegemonia dos valores culturais e dos poderes determinados pelas lógicas da economia mundial. Os estudos da colonialidade de poder e de saber no Brasil ainda são muito recentes. Autores como Nélson Maldonado-Torres, Ramón Grosfoguel, Walter Mingnolo ou Santiago Castro Gómez ainda não são muito estudados. Mas há elementos desses estudos em autores conhecidos nossos, como Boaventura de Souza Santos e Milton Santos. O mais importante dessa discussão é a necessidade de se produzir conhecimento e alternativas a partir dos lugares, conforme preconizava Milton Santos, de quem tenho o orgulho de ter sido aluno. Evidentemente que não se trata de desprezar o conhecimento produzido na Europa, nos Estados Unidos, mas sim de produzir valores próprios, com evidente diálogo com todas as referências que se puder ter do mundo, inclusive porque não há necessidade de se reinventar a roda, e sim recriá-la e aperfeiçoá-la a partir de nossas referências, seguramente.

8. O estado deve ser laico, desprovido de influências religiosas como garantia do exercício das diferenças. Como você observa esse assunto, presente no terceiro DVD, Vida Cotidiana, e a diversidade religiosa sem o anticlericalismo, mas a favor da defesa da religiosidade e suas inúmeras manifestações?

Não se deve pensar o Estado laico como algo que seja contra as manifestações religiosas. Eu mesmo sou uma pessoa religiosa e crente na existência divina. Como bom filho de nordestinos criados no catolicismo popular, creio em milagres. Mas o importante é entender que a esfera pública, ao ser laica, permite que cada um possa manifestar o seu credo, sua ideologia política, sua visão de mundo e assim por diante. Além da liberdade de escolha, deve-se considerar que há diversas concepções e doutrinas, mesmo dentro de cada tradição. Pode-se ter valores religiosos, ou outros de qualquer espécie. Mas para a tolerância e a boa convivência entre todos, o Estado laico é aquele que melhor protege a liberdade religiosa. Estado laico não é aquele que impede a manifestação da fé; ele apenas não assume e nem privilegia nenhuma das doutrinas religiosas. Assim, entendo que o espaço público possa receber e acolher as manifestações de credo das pessoas. Ele apenas não deve financiá-las. A organização de grupos religiosos em escolas, hospitais, penitenciárias e demais espaços públicos pode ser algo positivo e saudável. Só não se deve haver financiamento estatal para tanto, e muito menos privilégios entre os credos.

9. “Toda mulher brasileira é uma Maria, Maria”. Com essa afirmação você inicia o capítulo 10, A mulher brasileira, do terceiro volume da coleção Pluralidade Cultural. Explique essa declaração com a referência que faz a feminização da pobreza.

Esta afirmação trata-se da questão do gênero feminino. Constata-se que a discriminação de gênero e a opressão sobre a mulher faz com que a minoria dos lares pobres seja chefiado por mulheres, inclusive porque a renda da mulher tende a ser inferior à dos homens. A mulher negra recebe a menor renda entre todas as possibilidades de cruzamento racial e gênero. Portanto, ao referir-me à canção “Maria, Maria”, quis enfatizar a dimensão heroica da mulher das classes populares do Brasil, de todos os lugares do país e de todas as cores. Isso é um elemento visível em nosso cotidiano: a exclusão social associada em muito à pobreza da mulher, como um dos grupos historicamente discriminados.

10. Quais são os conceitos básicos necessários para se trabalhar com a pluralidade cultural na interculturalidade nas diversas disciplinas escolares?

Direitos humanos, diferença e diversidade, culturas no plural, desnaturalização de valores historicamente construídos e articulação entre realidade local e outras realidades, sobretudo pelo diálogo. Obviamente que outros conceitos podem surgir a partir dos locais onde o ensino-aprendizagem acontece.

11. Na sua opinião, quais as políticas e posturas que devem ser adotadas pelo Estado e pela sociedade como meios condutores de uma nova geração desprovida de preconceitos e intolerâncias?

O estímulo à convivência, a valorização da pluralidade, a laicidade do Estado, a produção de materiais escolares e formação docente continuada. Já pensou o quanto seríamos pujantes se superássemos as mazelas da sociedade? Tendo tais posturas conseguiremos ter uma cultura plural e um país miscigenado. Imaginemos as possibilidades que se criariam pela superação do racismo, da desigualdade e de toda forma de preconceito?

  
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