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ENTREVISTA – ASSESSORIA DE IMPRENSA PAULUS — 27/05/2009

Sonia Maria de Souza Pereira, autora do livro Bullying e suas implicações no ambiente escolar, PAULUS, 2009.

 

Como o bullying se manifesta?

Em primeiro lugar precisamos entender o que pode ser caracterizado como bullying. Trata-se de agressões sem motivação evidente que são perpetradas repetidamente contra uma mesma vítima que, por algum motivo, não consegue se defender sozinha.
Segundo as pesquisas, existem três formas de manifestação do bullying: a forma direta, a indireta e a psicológica. As agressões diretas incluem o tomar pertences, bater, chutar, empurrar, ferir com objetos, rasgar materiais escolares e fardamentos ou mesmo tomar o dinheiro do lanche.
Na forma indireta, podemos incluir as agressões verbais: apelidar de maneira pejorativa, fazer gozações, acusações injustas, implicações, espalhar boatos maldosos, entre outras. Também podemos incluir nesta categoria a forma de exclusão social na qual a criança fica fora do grupo, não podendo participar ou brincar com seus integrantes.
Como agressões psicológicas, podemos mencionar o próprio resultado das constantes agressões citadas acima e ainda o constrangimento para a vítima, a intimidação, a ridicularização sofrida, o próprio medo, pois o bullying se caracteriza justamente pelo fato dessas agressões serem constantes, em alguns casos, diárias. Este motivo é que o torna tão nefasto.

Como a escola pode identificar a ocorrência de bullying?

É muito difícil identificar o bullying, justamente por ser um fato que ocorre longe do olhar do adulto ou profissional escolar. Quando um professor ou outro adulto presencia um episódio de agressão, na maioria das vezes, esse evento é interpretado como uma violência banal ou corriqueira. Em alguns casos a família é chamada juntamente com a criança e esta pede desculpas à vítima. Mas não é bem por aí.
É preciso ter em mente que conhecer as características do bullying é muito importante na identificação do problema para que não se confundam os eventos. Esse papel a mídia já vem fazendo há muito tempo, trazendo uma série de informações acerca do assunto.
O bullying tem suas próprias características, não podendo ser confundido com agressões casuais ou mesmo brincadeiras de mau gosto. Enquanto essas não causam sequelas mais graves, aquelas provocam inúmeros danos ao psiquismo de suas vítimas.
Para que a escola identifique a presença do bullying, é necessário uma observação constante. Se uma criança está retraída, amedrontada, fica fora do grupo, deixa de brincar no recreio, fica sempre por perto de um adulto ao invés de estar com outras crianças; já são indícios de que alguma coisa está errada.
A criança vítima geralmente tem medo de ir à escola, às vezes o rendimento escolar cai, não participa da aula por medo das gozações, entre outros aspectos observáveis por um olhar mais atento.
Existem várias maneiras de identificar a presença do bullying na escola. Além da observação sistemática, podemos também aplicar questionários anônimos aos alunos, com perguntas diretas sobre agressões sofridas e/ou presenciadas. Essa é a maneira mais adequada de identificação, pois essas agressões acontecem na presença dos demais alunos, que não denunciam por medo de serem as próximas vítimas.

Como as instituições de ensino podem contribuir para a formação de uma cultura de não-violência na sociedade?

O primeiro passo é trazer a sociedade para dentro da escola através da família dos alunos, pois há muito tempo a escola deixou de ser uma instituição na qual o aluno recebia a complementação da sua educação. Por uma série de motivos, a família deixou em cargo da escola o seu papel na educação das crianças.
As escolas devem, também, estarem abertas à comunidade na qual estão inseridas. Promover eventos esportivos, cursos, palestras e debates sobre violência e formas de evitá-la ou mesmo minimizá-la também contribui. Promover cursos de capacitação aos jovens para inseri-los no mercado de trabalho, é de fundamental importância, porque é muito mais fácil fazer uma intervenção primária, ou seja, impedindo que as crianças e jovens se envolvam com a criminalidade do que retirá-los do crime. Ocupar o tempo desses jovens com esportes, cursos, reforço escolar já contribui para a redução no envolvimento com a violência.
Portanto, essas ações já são um bom começo para ajudar na formação de uma cultura de não-violência. Convidar a família a participar também colabora para ampliar os laços com a escola.

Quais medidas devem ser tomadas para evitar a manifestação do bullying?

A verdade é que não existem soluções definitivas, nem mesmo “receita de bolo” que possa evitar as manifestações do bullying. Este é um problema social, no qual a família, a escola, a mídia, todos devem se responsabilizar e promover uma educação para a paz.
Conhecer as características do bullying, suas formas de manifestação, os locais preferidos pelos agressores, assumir que o problema existe em todas as escolas do mundo, ainda que em maior ou menor escala, e principalmente promover uma observação mais atenta já contribui para uma redução das agressões.
Levar ao conhecimento dos próprios alunos as consequências do envolvimento com as práticas de bullying e promover a participação de todos os alunos na fiscalização também contribui para a redução desses episódios.
Deixar um espaço para denúncias anônimas pode contribuir, principalmente para aqueles que têm medo de serem as próximas vítimas, mas é preciso ter o cuidado de verificar a veracidade dos fatos para não cometer injustiças. No caso de se verificar a presença dessas agressões, chamar os envolvidos, procurar saber o que está realmente acontecendo e trabalhar com esses alunos.
Para a vítima, trabalhar a assertividade; para o agressor e, uma boa proposta seria buscar a solução nele próprio, ou seja, deixar que ele aponte sugestões sobre o que fazer para evitar que a vítima continue sendo alvo de suas investidas.

A origem do bullying está ligada ao ambiente escolar ou familiar?

A ambos, pois muitas vezes a presença do bullying nas escolas é devido à fiscalização ineficiente, descrédito nas reclamações das vítimas ou testemunhas pois muitos acham que são casos pontuais e sem importância, e no fato de que na maioria das vezes não trabalham a alteridade entre os alunos.
Com relação à família, além de acharem que determinados eventos são coisas de criança, não levam a sério as reclamações dos filhos por crerem que tais fatos são inofensivos, normais na relação entre crianças e/ou adolescentes.
Tanto a escola quanto a família desconhecem as terríveis consequências do bullying no psiquismo dos envolvidos e dos transtornos cognitivos. Muitas vezes, o agressor está apenas reproduzindo a violência sofrida por ele no seu seio familiar ou grupo de amigos.
Também pais muito protetores, permissivos, violentos ou omissos podem contribuir para que seus filhos venham a se envolver em eventos relacionados ao bullying, sendo possíveis vítimas ou agressores.
Escolas que não levam a sério as denúncias de agressões ou implicações entre alunos ou mesmo que deixam as crianças muito à vontade no recreio, ou seja, sem fiscalização adequada, estão contribuindo e muito na expansão dos casos de bullying.

Especialistas apontam que os praticantes do bullying possuem grande potencial de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais e violentos. Como os pais podem identificar este tipo de comportamento nos filhos e trabalhar para evitar tais condutas?

Para alguns pais é difícil identificar esse tipo de comportamento em seus filhos, pois, às vezes, eles próprios agem com violência. Ou muitas vezes os agressores, próximos aos pais ou aos outros adultos, agem naturalmente, sem indícios de violência. Ou mentem, dizendo não serem verídicas as acusações de agressão que lhes são imputadas.
Mas é possível, sim, identificar alguns traços comportamentais em crianças e jovens que praticam bullying. Como existem várias formas de agressão, há algumas mais fáceis de serem identificadas. Por exemplo, crianças que chegam da escola com pertences, dinheiro, vestuário que não são seus são indícios de que estão praticando atos ilícitos e, neste caso, cabe aos pais apurar o fato.
Outra evidência são as constantes reclamações e queixas feitas por parte da escola sobre o comportamento da criança dentro da unidade escolar ou em seu entorno. Se os pais recebem constantemente queixas sobre seu filho, com certeza já é sinal que algo não vai bem.
É papel dos os pais tentar tirar o véu que encobre seus olhos e tentar enxergar (ou mesmo procurar investigar) o comportamento de seu filho, buscando ajuda com especialistas (psicopedagogos, psicólogos, pediatras ou mesmo o próprio professor e outros profissionais da escola) para solucionar o problema o mais cedo possível a fim de evitar maiores danos.

Com relação à criança que sofre as agressões, como a escola pode identificá-las e evitar o problema, já que, normalmente, estas crianças são inseguras e não conseguem solicitar ajuda?

Existem algumas formas para a verificação de tais fatos. Por exemplo, um excelente aluno, extrovertido, alegre e que, de repente, muda de atitude, torna-se arredio, o rendimento escolar decresce, fica triste, deixa de participar da aula, às vezes deixando até de frequentar as aulas por medo de sofrer novas agressões. Neste caso, com certeza alguma coisa está acontecendo, como no dito popular “onde há fumaça, há fogo”. Portanto, algo precisa ser feito.
Como a criança sozinha jamais irá buscar ajuda (ou quando busca, muitas vezes, não encontra), cabe ao professor ou aos demais profissionais da escola ser um bom observador e tentar reconhecer as possíveis causas da mudança de comportamento, além de levar mais a sério as queixas de seus alunos.
Uma maneira saudável é dialogar com esse aluno, questionar algum outro coleguinha mais próximo sobre o que está acontecendo e buscar, junto à direção, identificar o agressor para, então, trabalhar a vítima com o agressor, podendo até promover um evento com a participação de todos os alunos no combate à violência, inclusive aproveitando a oportunidade para levar ao conhecimento de todos as consequências do bullying. Isso permitirá que os próprios alunos encontrem soluções pacificadoras de combate às agressões, principalmente do bullying.

E como os pais destas crianças, que são vitimas do bullying, podem identificar o problema em casa? Como eles podem ajudá-las?

Para os pais, as observações não se distinguem muito daquelas que devem ser feitas pela escola. O maior diferencial é o fato de que os pais conhecem melhor seus filhos e podem detectar mais facilmente que algo está errado. No caso da queda do rendimento escolar, o fato de se recusar a ir à escola, medo, insegurança, materiais rasgados e/ou quebrados, não lanchar durante o recreio, entre outras observações; são indícios de violência sofrida no ambiente escolar.
Para evitar tais ocorrências, os pais devem dialogar sempre com seus filhos, perguntar como foi o dia na escola, o que aconteceu, se lancharam. E caso encontrem alguma coisa anormal (farda rasgada, mochila, livros ou cadernos), procurar saber como aconteceu.
É válido, sempre, lembrar que deve haver confiança entre pais e filhos para que tal diálogo aconteça e, caso haja alguma evidência de agressões, procurar a escola para que tome as devidas providências, sem, no entanto, expor a criança como “delatora” para evitar danos piores.
O importante é que os pais não achem que a violência faz parte do desenvolvimento infantil. Isso não é verdade. A cultura da não-violência deve começar em casa e os pais têm um importante papel nessa tarefa.

Existem estudos que mostram a incidência do problema no Brasil?

No Brasil, estudos especificamente sobre o bullying ainda são muito superficiais e pontuais. Existem vários deles sobre violência escolar, como os realizados pela UNESCO e por várias universidades e ONGS, mas a grande maioria trata da violência de modo geral (ou seja, todas aquelas que acontecem no ambiente escolar e em seu entorno), sem levar em conta as especificações do bullying.
Durante minhas pesquisas bibliográficas sobre bullying na literatura nacional, somente encontrei menção ao termo nos trabalhos realizados a partir de 2005 pelos pesquisadores Aramis Lopes Neto, Cléo Fante e em alguns artigos publicados em revistas acadêmicas.
É claro que diante da imensidão do Brasil e do grande rol de livros existentes pode ter passado despercebido algum artigo ou livro sobre o tema, mas no geral a grande maioria trata da violência de maneira generalizada, às vezes, fazendo uma breve menção ao termo bullying e suas peculiaridades, sem, contudo, aprofundar o assunto.
Ainda carecemos de uma pesquisa mais aprofundada, mais abrangente, pois uma coisa é certa: o bullying está presente em todas as escolas, ainda que em maior ou menor escala.
Como surgiu este trabalho sobre o bullying que, hoje, tornou-se um livro?

O tema surgiu na minha vida acadêmica por acaso, no segundo semestre de 2005. Tínhamos que apresentar um seminário para a disciplina “Psicologia da Educação”, e o tema era livre, desde que estivesse ligado à disciplina. Depois de muito pesquisar, uma colega me apresentou o assunto. Foi então que me deparei com uma séria questão: acabei descobrindo que meu filho estava sendo vítima de bullying, ou seja, o que eu, assim como a maioria dos pais, achava que era coisa de criança, na verdade estava comprometendo os estudos dele, que já não queria mais ir à escola, e seu rendimento estava ficando cada vez mais prejudicado.
Comecei a me aprofundar no assunto e, conversando com os professores, percebi que na escola em que ele estava matriculado ninguém conhecia o tema. Também pude perceber que na faculdade o tema era praticamente desconhecido, pois para os meus colegas que assistiam ao seminário, tudo era novidade.
A partir daí comecei a pesquisar, procurar novas bibliografias, fiz meu projeto de TCC sobre o tema bullying, sendo que na FACED/UFBA não existia, até então, nenhum trabalho que abordasse o assunto.
Tive o prazer de ter uma excelente orientadora, que me trouxe excelentes contribuições e teve muita fé neste trabalho. Foi ela quem me motivou a aprofundar mais e mais o tema, concluído com este trabalho, que hoje é um livro.

Na sua opinião, quais são os fatores determinantes da violência?

Há algumas décadas eu diria que era o fator socioeconômico, mas hoje está comprovado que ele não é mais determinante para a violência, visto que ela está disseminada por todo o tecido social.
Hoje eu diria que os fatores predominantes, mas não únicos, são: a crescente mudança na estrutura familiar, o consumo de drogas lícitas e ilícitas (ou mesmo o tráfico destas), a crescente inversão de valores, a própria influência da mídia e do consumismo, essa horrenda má distribuição de renda na qual dois mundos, incluídos e excluídos, vivem paralelamente no mesmo ambiente, entre muitos outros. A lista é extensa, mas podemos afirmar que a própria globalização contribuiu para a inserção de novas perspectivas de vida e consumo, muito aquém do padrão econômico da sociedade brasileira.

As características das manifestações de bullying no Brasil se diferem de outros países? Explique.

Não. Na literatura referente às pesquisas realizadas em outros países, os dados encontrados são bem semelhantes. Analisando os achados nos trabalhos de Beatriz Pereira, em Portugal, e Alessandro Costantini, na Itália, inclusive dados encontrados pelo próprio Dan Olweus, que foi o primeiro a fazer uma pesquisa a nível nacional na Noruega, os dados sobre o bullying se assemelham em muitos pontos, principalmente quanto às consequências, o perfil dos envolvidos, os locais preferidos pelos agressores, as formas de manifestações e os padrões de envolvimento (preferência das agressões diretas por meninos e indireta por meninas).
Ainda que estejamos engatinhando nas pesquisas sobre o tema — pois não temos ainda uma pesquisa em âmbito nacional, podemos afirmar que a semelhança é bastante evidente.

Atualmente, na novela Caminho das Índias, o personagem Indra sofre perseguições, na escola, do seu colega de classe, Zeca. Esse caso fictício pode ser caracterizado como bullying? Como você observa a exposição deste tema na mídia e qual a importância que os veículos de comunicação exercem no debate desta temática?

Até onde conheço, as perseguições se encaixam nos padrões do bullying, pois o Zeca (Duda Nagle) intimida, discrimina, constrange o Indra (André Arteche), e até mesmo os professores são intimidados.
É muito interessante expor esse tema em novelas porque, esta, além de ditar moda, também pode mostrar as consequências cruéis do bullying, por exemplo. Por atingir um grande público e todas as camadas sociais, o bullying deixa as esferas acadêmicas para se tornar debate nacional.
Diferentemente do que ocorria há alguns anos, hoje, grande parte dos professores já conhece ou ouviram falar do bullying. O papel da mídia está sendo determinante para a propagação das informações sobre o tema, principalmente mostrando as consequências mais trágicas que podem ocorrer na presença do bullying.
Acredito que o tema ainda pode ser mais explorado. A mídia está fazendo seu papel, ainda que meio tímido, mas já é um começo. Pelo fato de ser um veículo de massa, é fundamental que o conhecimento acerca do tema seja propagado para o universo educacional, o que, espero, contribua para tirar a venda dos olhos dos pais e profissionais da escola e diferenciem as agressões casuais dos casos de bullying e evitem maiores danos aos nossos filhos e alunos.
No entanto, enquanto alguns programas trazem, ao debate o tema bullying, no sentido da argumentação e prevenção, há também aqueles que promovem e incentivam essas agressões, pois fazem delas motivo de piada e brincadeiras. A mídia tem um papel importantíssimo para a inserção de valores na nossa sociedade. Por esse motivo, ela deve ser mais cuidadosa na forma de expor certos temas, enquanto que a escola e a família têm que estar presentes para aproveitar o gancho e desenvolver nas crianças, desde cedo, o senso crítico.

  
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